O Poder do Silêncio

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Qual é a primeira coisa que faz ao acordar pela manhã? E qual é a última, antes de fechar os olhos para dormir? É bem provável que a sua resposta seja “olhar para o smartphone”. Para a monja budista Kankyo Tannier, esses dois momentos do dia são importantíssimos e nós os estamos desperdiçando. “São momentos-chave. Precisamos praticar a consciência dos pensamentos que vem à mente, para observar como estamos sentindo, o que esses pensamentos nos dizen, como eles vão influenciar o nosso dia.” . Tannier tem 43 anos e há 15 passa a maior parte do tempo num mosteiro na Alsácia, leste da França, rodeada de paisagens deslumbrantes, aves, cavalos e gatos. Formada em direito e hoje budista zen, ela vem sendo considerada uma das novas vozes do budismo devido ao seu jeito simples, acessível e amoroso de se comunicar, e o seu estilo de vida moderno. Tem um TEDx com mais de 40 mil visualizações, escreve um blog, mantém um canal no YouTube, tuíta quase que diariamente, tem um companheiro e trabalha com PNL (programação neurolinguística) e hipnose, em paralelo ao budismo. Coerente com os tempos em que vivemos, o seu objetivo não é sugerir que as pessoas deixem de usar o smartphone, por exemplo, mas que estejamos conscientes do uso que fazemos dele. “Quando saltamos de uma tela para outra, do smartphone para a televisão, de maneira automática ao longo do dia, esquecemos onde estamos. ‘Perdemos’ o nosso corpo ou a sensação de ter um. Somos movimentados para uma realidade virtual, que, longe de nos saciar, em geral intensifica as nossas carências e fragilidades emocionais”, diz. O seu objetivo é fazer com que as pessoas possam usar a tecnologia a seu favor (uma das dicas simples é instalar aplicativos de meditação no smartphone). Para isso, a monja tem como foco o poder do silêncio. “Actualmente temos muitas respostas, nunca tivemos tanta informação sobre o mundo, sobre nós mesmos, como agora. O ponto chave é a prática. É preciso praticar, inserir esses exercícios na vida quotidiana. O silêncio não é possível apenas no meio de uma floresta. Não precisamos estar isolados. O silêncio interior pode ser encontrado no coração de uma cidade.”.  Tannier durante o lançamento de A magia do silêncio, livro repleto de exercícios simples e práticos para o dia a dia e que já foi traduzido para 12 idiomas, falou sobre os impactos de uma vida hiperligada, a importância de silenciar as palavras, o corpo e os olhos, e como tudo isso pode nos ajudar também manter a saúde mental.

Pergunta: O que  considera um uso saudável da internet?
Kankyo Tannier
Faz apenas 20 anos que a internet está na vida dos seres humanos. E são só dez anos de redes sociais. Isso mudou completamente a nossa vida. Quando estamos na frente do computador, não temos mais consciência do nosso corpo, estamos só na mente. É como se o nosso espírito estivesse hipnotizado. No Facebook, ao mesmo tempo em que vê a foto de um gatinho fofinho, vê notícias de crianças mortas. Passamos rapidamente de uma imagem para outra, de uma emoção para outra. Às vezes, a gente quer olhar o Facebook para fazer uma pausa, mas, ao final, estamos piores. É um acumular muito rápido de emoções diferentes. O ponto importante do meu livro e do budismo é estar consciente das emoções. Sentir no corpo.

Nós perdemos o hábito de prestar atenção? Estamos sempre pensando no depois. Precisamos reaprender a estar presentes e atentos ao segurar um copo ou abrir uma porta, por exemplo. Estamos vivendo um mundo virtual. O desafio é perceber como o mundo real também pode ser bom e dar prazer.

Essa busca por desconexão também pode causar ansiedade e a angústia. Como dar volta a isso? Quando nós voltamos a si mesmo, voltamos ao todo, às coisas positivas e negativas. Geralmente, as pessoas param as práticas ao encontrar emoções que são difíceis de lidar. Mas é como domesticar um animal selvagem, temos que ir aos poucos. É possível começar a desligar de tudo por cinco ou dez minutos e, com o tempo, ir ficando mais à vontade com a prática. As emoções são muito importantes, preciosas. Precisamos acolher as negativas também. Quando acolhemos, elas passam.

Dá bastante exercícios práticos no livro para o dia a dia. Nós deveriamos fazer retiros mais longos com frequência ou essas pausas no dia a dia são suficientes? É muito importante sair do quotidiano, porque quando voltamos, estamos diferentes. Assim como aprender a prática formal da meditação, a técnica pura. Por exemplo, naúltima viagem que fiz estive em São Paulo, no Brasil e fui conhecer o Templo Busshinji, no bairro da Liberdade. Lá são oferecidas sessões de meditação para iniciantes duas vezes por semana, em que as pessoas são guiadas por monges em grupos grandes de 40/50 pessoas, em que é possível aprender a ficar 40 minutos em silêncio. Aconselho essa experiência a todo mundo. Sozinho é muito mais difícil.

Vive parte do tempo isolada numa cabana no bosque, cercada de plantas e animais. O que isso te ensinou sobre a vida? Com os animais, aprendemos a simplicidade. Eles não conhecem o nosso nome, tanto faz o que fazemos na vida. É uma ligação no instante presente com o nosso coração, com a nossa energia, sem passado, sem futuro, aqui e agora. Tento entrar em contato com os seres humanos da mesma maneira, sem ter que provar nada, somente ser. Para conseguir isso, é necessário uma consciência do corpo, tem que desconectar. Às vezes, dá medo, com os animais ou com as pessoas, mas tudo bem.

Estamos vivendo um momento muito importante como no resto do mundo. As pessoas estão brigando demais com quem pensa diferente… Tem um ditado budista muito bom: “Nós podemos ser amigos sem concordar”. Isso é precioso. Senão, seríamos amigos só das pessoas que se parecem com a gente.

É mesmo impossível conviver só com pessoas que pensam como nós. Mas esse é um momento que exige conversas críticas e posicionamento, não é? De que maneira o silêncio e a observação podem ajudar-nos a ter conversas mais saudáveis? Dizer os motivos de pensar o que acha é diferente de dizer “esse pessoa é má”. Quando conversamos com as pessoas, é importante falar com sabedoria. Às vezes, quando não concordamos, não é preciso ficar insistindo nisso. Podemos simplesmente ouvir a opinião do outro e, se for o caso, não se deixar abater por ela. Quando estamos em paz com nós mesmos, nem sempre precisamos ganhar na fala.

No livro, fala do silêncio dos actos, como espiritualidade ética, passando pelo respeito à terra, o consumo consciente, o vegetarianismo. A meditação pode salvar o mundo? A meditação é a única possibilidade. Quando nós nos conhecemos, temos consciência das nossas emoções, inclusive as negativas, e podemos ter uma prática mais sábia no mundo sobre como nos relacionamento com as pessoas, como consumimos. Percebemos que temos influência e responsabilidade nesse mundo. Não são os políticos que vão mudar o mundo, somos nós.

Algumas práticas para o dia a dia
“Para mudar o seu funcionamento interior é necessário adoptar uma prática regular. É preciso fazer exercícios diariamente.”

Prática 1
Em frente ao computador, fixe um ponto, seja um ícone ou um lugar qualquer da tela. O importante é focalizar o seu olhar numa direcção precisa. Em seguida, permita que surja uma nova percepção do seu corpo e do mundo que o cerca. Respire! Faça pausas visuais de três minutos a cada duas horas.

Prática 2
Toda manhã, antes de sair da cama, tome consciência do seu primeiro pensamento ao despertar. Deixe-o passar, observe o seguinte e comece o dia de maneira consciente.

Fonte: Daily Zen/Tpm

One thought on “O Poder do Silêncio

  1. fernando.carvalhal@naturaselection.com.pt

    Em dom, 21 de out de 2018 às 07:16, Portal do Budismo escreveu:

    > Portal do Budismo posted: ” Qual é a primeira coisa que faz ao acordar > pela manhã? E qual é a última, antes de fechar os olhos para dormir? É bem > provável que a sua resposta seja “olhar para o smartphone”. Para a monja > budista Kankyo Tannier, esses dois momentos do dia são importa” >

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