“Na banca atingi o limite. Tive desmaios. Mas o Yoga deu-me paz de espírito”

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Namastê. Sou a Lara Valadinhas Fernandes e aprendi a cumprimentar desta forma, em sânscrito. Tenho 35 anos e sinto-me diferente desde que me dedico a 100% ao Yoga. Antes, sugavam-me a força vital. O telefone não parava de tocar, atendia cerca de 100 chamadas por dia no departamento de assistência online de uma instituição bancária. Os clientes reclamavam, alguns eram ofensivos e descarregavam em mim. Analisando à distância, não os censuro. Gerir o dinheiro dos outros interferia inevitavelmente com as emoções alheias. As chefias pressionavam: tinha de fazer boa figura; cumprir os objectivos e os turnos alternados (tanto das 7h às 15h, como das 17h à 1h), todas as semanas.

Sábados e fins-de-semana eram de trabalho, sem margem de manobra. O corpo e a mente ressentiam-se, a ponto de ter desmaios inexplicáveis e herpes com muita frequência. Os médicos atribuíram os sintomas ao stress extremo. Era mais uma bancária em burnout, a pedir uma mudança profunda e radical.

Sete anos depois desta rotina, em 2012, atingi o limite: saí do banco por mútuo acordo. Melhor dizendo, celebrei a minha liberdade e continuo a praticá-la diariamente. Troquei o plano de vendas por um de vida, onde o Yoga foi o motor. Entre ter um emprego seguro mas que me fazia infeliz, ou viver na incerteza de não saber como será o dia de amanhã ou o vencimento, prefiro a segunda e sentir-me melhor.

CD de relaxamento profundo
Até ao final deste mês, o meu CD sobre yoga nidra (técnica de relaxamento profundo) deve estar pronto. Recomendo que seja ouvido à noite, ao deitar, especialmente para quem tem uma profissão stressante como a que tive. Espero que seja bem recebido. Acredito que todas as empresas com espaço para esta filosofia e meditação cresçam mais depressa porque os funcionários se sentem bem.

Quando as coisas complicaram na banca, virei-me para esta prática para ter paz de espírito. Depois de vários cursos e de escolher a corrente que tinha mais a ver comigo (a hatha, que não faz a apologia do guru como acontece com algumas), investi mais dois anos para ser professora certificada.

Faz agora um ano que encontrei o espaço para a minha escola, na Penha de França, Lisboa, que inaugurei em Março de 2018. A Adhara Yoga Shala (Adhara vem do sânscrito e quer dizer suporte; Shala significa casa) é sobretudo um lugar de partilha, onde no final das aulas ficamos a conversar. Costumo dizer aos meus alunos que a mudança não tem necessariamente de ser um bicho, um monstro terrível.

Não tendo propriamente um ídolo na área, fui inspirada por um livro que li há sete anos, Autobiografia de um Yogui (1946), de Paramahansa Yogananda. Estamos sempre à procura de um guru, de alguém que nos guie. Mas de um professor não se pode esperar que saiba tudo e tenha as respostas mas que encaminhe a pessoa para elas. Afinal, o que precisamos está cá dentro, na nossa cabeça.

O entusiasmo inicial na banca
Comecei na banca quando atingi a maioridade, em regime de part-time e cheia de entusiasmo para vestir a camisola. Nem cheguei a mandar currículos para outros sítios, porque houve um deslumbramento inicial pela aprendizagem de produtos financeiros e dinâmica comercial. Ainda estudava na universidade Católica, no curso de Línguas Estrangeiras Aplicadas – que tinha uma componente de marketing e de contabilidade.

Aos 21 anos, tive oportunidade de estagiar na área. Passar a full-time parecia-me o passo seguinte e assim cheguei aos quadros. O ambiente era amigável. Os colegas casavam-se entre si porque não tinham vida social além do banco. Eu ia tendo alguma, mas cada vez menos porque estava sempre cansada.

A queda por exaustão
Sentia-me exausta. O cérebro já tinha dificuldade em processar determinadas informações ou repousar devidamente. Mal dormia. Aliás, qualquer actividade além do trabalho revelava-se um desafio quase intransponível tendo em conta que o atendimento telefónico de um banco nunca fecha para situações de emergência, nomeadamente cancelamento de cartões. Havia sempre a possibilidade da semana de trabalho de madrugadas ser no Natal, Passagem de Ano ou feriados. Uma semana de férias nunca era suficiente para desligar.

Segundo o contrato, trabalhávamos oito horas por dia mas a realidade não era bem esta. Na prática, todos os minutos contavam. O simples facto de ir à casa-de-banho era contabilizado através de um programa instalado no computador. Tinha de compensar esse tempo ou as pausas para café. A nossa equipa esforçava-se por ter uma boa pontuação de desempenho, motivada pelo retorno financeiro. Os dividendos do banco eram partilhados pelos accionistas e funcionários. Nos anos bons, cada um podia receber prémios de €500 ou €700 anuais; nos maus, €50. Obtive os maiores prémios durante dois anos.

Entre os 22 e 23 anos, o trabalho por turnos começou a moer. Parecia estar muito bem e subitamente caía para o lado. Tinha desmaios frequentes. Fiz electroencefalogramas, porque inicialmente pensavam que sofria de epilepsia. Além disto, tinha herpes de 15 em 15 dias que rebentavam em situações de stress. Receitaram-me medicamentos para o vírus, eram uma bomba para o organismo.

Os exames aos desmaios deram negativos e os médicos atribuíram os sintomas ao stress. Então comecei a ler uns livros sobre o Yoga e alimentação e de que forma somos o que comemos. Percebi que se calhar devia retirar alguns alimentos e cortei na carne. Comecei a sentir-me mais forte e animada e os desmaios pararam.

A recuperação
Aos 16 anos fiz uma primeira aula de Yoga juntamente com a minha mãe, em casa da minha tia Guida. A parte espiritual desde sempre fez parte da minha vida, mas aprofundei-a quando senti desgaste do banco. Virei-me então para o Yoga e frequentei várias escolas até encontrar a que se adequava mais ao meu perfil. Conciliar as aulas com o trabalho era difícil por causa dos turnos.

Certo dia, em conversa de café com a minha mãe disse-lhe que estava infeliz e ela perguntou-me simplesmente:
– O que te faz feliz?
– O Yoga. 
– Então tens de tirar o curso de professora de Yoga. 

Na altura, pensei que era meio piada. Mas depois reconsiderei: “Porque não?”. Consultei três amigos que me deram força para sair do banco e assim fiz. Saí de forma amigável em Dezembro de 2012, em plena crise. Deram-me todas as regalias: indemnização, seguro de saúde e subsídio de desemprego. Entretanto, fiz formação para ser professora e tirei várias especializações de Yoga suspenso e para crianças, taças tibetanas e meditação. Dava aulas em várias escolas, já estava em dez.

Achei que andava a correr demasiado e tinha alunos suficientes para abrir a minha escola. No ano passado, comecei a procurar espaços até encontrar um na Penha de França. Os amigos ajudaram nas obras e divulgação da escola, assim como o meu marido que foi incansável. Fiz uma pequena festa de inauguração para 20 pessoas. Depois uma ex-aluna e amiga fez um pequeno espectáculo de demonstração.

A experiência financeira tem sido útil para a parte de gestão da escola. Logo no primeiro mês atingimos o break-even[ponto de equilíbrio entre custos e receitas]. Deixar a banca pelo Yoga foi a melhor decisão da minha vida, embora trocar o certo pelo incerto tenha implicado alguma coragem e reflexão. Estou convicta de que quando seguimos o caminho correcto tudo corre pelo melhor.

Autora: Raquel Lito – Sábado

Foto: Sem autor referido.

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