A Humildade é uma Vantagem Evolutiva.

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Pode parecer um contra-senso gabar um traço de carácter que se distingue pela sua discrição e modéstia, mas estudos recentes vêm confirmar que a humildade é uma vantagem. Não é fácil fingi-la, mas pode ser cultivada.

Um artigo recente no The New York Times despertou a atenção. “Be Humble, and Proudly, Psychologists Say”, o que traduzido dá qualquer coisa como “Seja humilde, com orgulho, dizem os psicólogos”. Apetece perceber, uma vez que a humildade é um traço de personalidade tantas vezes desvalorizado, associado a fraqueza, subserviência ou baixa autoestima. Ora, parece que é precisamente o contrário, dizem os estudos citados pelo jornal norte-americano e os especialistas que consultámos.

Um desses estudos, coordenado por Daryl Van Tongeren, professor de psicologia da Universidade de Hope, no Michigan, conclui que a humildade é uma vantagem não só no estabelecimento de relações mais fortes e significativas como em termos de saúde mental. Uma maior tendência para não julgar, os outros e a si próprio, para ser compreensivo e para não guardar rancores cria os recursos psicológicos para uma maior capacidade de superação das dificuldades e proteção da saúde mental.

As pessoas com humildes são menos influenciáveis, menos manipuláveis (e manipuladoras) e menos extremistas.

Outra cientista, Elizabeth Krumrei Mancuso, da Universidade de Pepperdine, levou a cabo uma série de experiências que a conduziram à conclusão de que a humildade está fortemente associada à curiosidade, à capacidade de reflexão e à abertura de espírito, o que torna as pessoas com este traço de personalidade menos influenciáveis, menos manipuláveis (e manipuladoras) e menos extremistas, em termos políticos, ideológicos ou religiosos, apesar de mais convictas das suas opiniões, o que, parecendo uma contradição, não é.

Joana Valério, psicóloga clínica e da educação, da Claramente, explica porquê. “A humildade tem sido, ao longo do tempo, um conceito pouco compreendido, mas se formos à origem etimológica da palavra, descobrimos que deriva do latim “humus”, que designa terra.

A capacidade de aceitação e de tolerância dos aspetos mais vulneráveis e dolorosos da personalidade permite estabelecer relações interpessoais sustentadas sobretudo na compreensão em vez de ser no julgamento e na crítica.

Assim sendo, a humildade pode ser entendida como um processo psicológico a partir do qual o indivíduo se relaciona consigo e com os outros de forma realista, mantendo “os pés assentes na terra” e reconhecendo não só as suas qualidades como as suas limitações. Este posicionamento perante si próprio e os outros é sem dúvida vantajoso do ponto de vista psicológico, na medida em que a consciência das nossas limitações nos torna mais disponíveis para investir no nosso próprio desenvolvimento pessoal e para aceder a níveis mais sofisticados de conhecimento”.

De acordo com a especialista, para além desta recetividade para a aprendizagem, a capacidade de aceitação e de tolerância dos aspetos mais vulneráveis e dolorosos da personalidade também permite estabelecer relações interpessoais sustentadas sobretudo na compreensão em vez de ser no julgamento e na crítica, o que aumenta a qualidade dos relacionamentos.

A inércia pode dever-se em grande parte aos baixos níveis de humildade dos líderes nas organizações.

Lurdes da Costa Gonçalves, investigadora da universidade de Aveiro, também tem vantagens a apontar à humildade – que considera um “recurso valioso, raro, insubstituível e difícil de imitar” – nomeadamente a nível empresarial, para a liderança, a criatividade e as relações de trabalho.

“A humildade é uma virtude crucial para que as organizações se libertem da inércia e se tornem mais adaptáveis e abertas à contínua transformação necessária para o seu sucesso e/ou sobrevivência. A inércia pode dever-se em grande parte aos baixos níveis de humildade dos líderes nas organizações”, explica a especialista, acrescentando que, de acordo com a sua investigação sobre a influência da humildade na criatividade das equipas, “os que reconhecem os pontos fortes dos outros e os seus contributos; apreciam as contribuições de outros sem se sentir ameaçado por eles; têm uma maior abertura a novas ideias e a noção de que não sabem tudo, estando abertos e recetivos à aprendizagem, e uma maior propensão a considerar com maior precisão o seu lugar no universo contribuem para que as equipas sintam segurança em desenvolver um comportamento criativo”.

Quais são as principais características de uma pessoa humilde?

Segundo a psicóloga Joana Valério, tende a revelar um autoconhecimento mais desenvolvido e uma autoimagem mais íntegra e coesa na qual estão integrados os aspetos mais fortes da personalidade mas também os mais vulneráveis. “Para além de aceitar as diferenças com mais tranquilidade e sem julgamento, a pessoa humilde demonstra mais empatia, interesse e respeito pela perspetiva do outro, comunicando sem adotar uma postura autocentrada e egocêntrica, o que a torna mais competente do ponto de vista emocional, pessoal e social”.

Se esta característica pode ser ensinada ou trabalhada em psicoterapia é uma questão em aberto para reflexão, de acordo com Daryl Van Tongeren, que disse ao The New York Times: “Paradoxalmente, as pessoas que estão mais abertas e motivadas a cultivar a humildade são as que menos precisam de o fazer. E vice-versa, as que mais precisam provavelmente seriam as mais resistentes a essa aprendizagem”.

Joana Valério, considera que a “humildade, sendo uma característica individual que implica algum grau de maturidade psicológica, que é passível de ser desenvolvida e moldada por experiências e pela influência do meio externo”.

Para a psicóloga da Claramente, para desenvolver a humildade, é importante:

O autoconhecimento: o conhecimento mais profundo das nossas limitações e a aceitação das mesmas permite-nos ter consciência da nossa necessidade de crescimento pessoal e de estarmos disponíveis para novas aprendizagens e experiências.

A aceitação da falha e o admitir dos erros: as pessoas que exibem capacidade para tolerar e admitir os seus erros, podem mais facilmente aprender com eles e evoluir, transmitindo igualmente aos outros uma honestidade emocional e uma dimensão humana despojada de ideais de perfecionismo que é apreciada e respeitada.

A aceitação da necessidade do outro: a capacidade para pedir ajuda e receber esse cuidado por parte do outro sem se sentir diminuído na sua autoestima é uma expressão de humildade que proporciona trocas relacionais de colaboração, solidariedade e afetos, bem como a experiência da gratidão.

O interesse genuíno pelo outro: a consciência de que todas as pessoas, independentemente do seu grau de instrução, idade, profissão e estrato social, têm experiências de vida diferentes da nossa e algo a partilhar permite-nos estar mais disponíveis para escutá-las verdadeiramente. Facilitar a expressão do outro e conseguir apreciar e elogiar as suas qualidades e talentos é uma via importante para desenvolver a humildade.

A empatia: o desenvolvimento da capacidade de nos colocarmos no lugar do outro e de procurarmos ir ao encontro das suas necessidades, numa relação de ajuda, por exemplo, facilita a descentração e promove a procura por contribuir para o bem estar do outro, sendo essa uma experiência de crescimento pessoal,

A consciência da finitude: a consciência de como tudo é efémero e transitório, e que os sucessos coexistem com as fragilidades, dispensa a necessidade de atitudes exibicionistas ou de auto-engrandecimento.

Texto de Catarina Pires | Ilustração de i-Stock

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