Aplicativos de Meditação erram ao interpretar Mindfulness Budista.

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No mundo stressante de hoje, mindfulness — espiritualidade popular que procura o foco no momento presente — promete aliviar a ansiedade e o stress da vida moderna. Há diversos aplicativos populares, que prometem curar tudo, e têm como alvo uma grande variedade de pessoas: de profissionais urbanos ocupados a quem pratica dieta, e até quem sofre de insónia e crianças.

Mas será que esses apps verdadeiramente promovem ideais budistas ou são produto de uma indústria de consumo lucrativa?

Benefícios para a saúde
Como é praticada nos EUA actualmente, a meditação mindfulness foca em estar intensamente atento, sem nenhum tipo de julgamento, para o que está sentindo no momento. A prática de mindfulness surgiu como um contraponto à tendência que muitos de nós temos de passar tempo demais planeando e resolvendo problemas, o que pode ser stressante.

As práticas de mindfulness, conforme nos aplicativos budistas, envolvem meditação guiada, exercícios de respiração e outras formas de relaxamento. Testes clínicos mostram que o mindfulness alivia stress, ansiedade, dor, depressão, insónia e hipertensão. No entanto, há poucos estudos sobre os aplicativos de mindfulness.

O entendimento popular actual de mindfulness deriva do conceito budista de sati, que é tornar-se atento ao corpo, sentimentos e outros estados mentais.

Nos textos budistas antigos, mindfulness significava não só prestar atenção, mas também lembrar o que Buda ensinou, para ser capaz de discernir entre pensamentos, sentimentos e acções úteis e inúteis. Isso levaria à libertação do ciclo de nascimento e morte.

Por exemplo, o texto budista Satipatthana Sutta descreve não só ter consciência da respiração e do corpo, mas também comparar o corpo ao de um cadáver num cemitério para apreciar o surgimento e a suspensão do corpo.

“A pessoa tem consciência de que o corpo existe só até o ponto necessário para ter conhecimento e atenção. E permanece desapegado, sem se segurar a nada no mundo”, escreve o sutra.

Neste caso, o mindfulness permite que a pessoa aprecie a impermanência, não se apegar a coisas materiais e a procurar conseguir maior consciência para finalmente tornar-se iluminado.

Os primeiros praticantes budistas de mindfulness eram aqueles que criticavam os valores da sociedade de massa e normas culturais como beleza do corpo, laços familiares e riqueza material.

Os apps de mindfulness, por outro lado, encorajam as pessoas a aceitarem e acomodarem-se à sociedade. Elas aprendem a ignorar as causas e condições exteriores do sofrimento e do stress, que podem ser políticas, sociais ou economicas.

Indústria lucrativa
Aplicativos de mindfulness são parte de uma indústria passiva e lucrativa avaliada em cerca de 130 milhões de dólares.

Dois aplicativos, Calm e Headspace, têm cerca de 70% de todo esse mercado. Eles atendem a uma audiência ampla, que inclui consumidores religiosos e o número crescente de norte-americanos que se consideram espirituais, mas não religiosos.

Por exemplo, os norte-americanos passam mais de cinco horas todos os dias colados aos seus dispositivos móveis. Cerca de 80% deles olham para os seus smartphones nos primeiros 15 minutos depois de acordar. Os aplicativos são uma maneira de meditar mesmo na rotina corrida.

O facto de que os aplicativos budistas existem não é surpreendente, pois o Budismo sempre foi muito bom em usar novas tecnologias de mídia para espalhar a sua mensagem. O livro impresso conhecido mais antigo, por exemplo, é uma cópia chinesa do Sutra Diamante, um texto de budista Sânscrito que data ao século 9.

Estariam esses apps simplesmente dando uma nova cara ao Budismo antigo com roupas novas digitais?

Isso é Budismo?
Não há dúvidas de que apps budistas são um reflexo de descontentamento social real. Mas, em análise, mindfulness, quando despida dos seus elementos religiosos, pode distorcer o entendimento sobre Budismo.

Um aspecto chave do Budismo é o conceito da ausência do eu: a crença de que não existe um eu, uma alma ou outra essência imutável e permanente. Ao promover uma abordagem individualista para a religião, portanto, apps budistas vão contra a própria essência da prática budista.

De facto, as descobertas mostram que aplicativos de meditação budista não são uma cura que alivia o sofrimento no mundo, mas mais uma espécie de opioide que esconde os sintomas reais do estado precário e stressante no qual muitas pessoas se encontram hoje.

Neste caso, apps budistas, mais do que curar a ansiedade causada pelos nossos smartphones, só nos deixa mais viciados neles e, no fim, até mais stressados.

Artigo originalmente publicado no The Conversation e adaptado pelo Portal do Budismo.

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