Monge japonês é maquilhador e inspira budismo LGBTQ+ no país

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Filho de monges, Kodo Nishimura cresceu num um templo. O budismo parecia ser o caminho natural para o jovem que vive em Tóquio. Mas ainda havia outra estrada a percorrer: o desafio de lidar com a sexualidade. Aos 30 anos, Nishimura unificou duas estradas.

Como monge e maquilhador, ele quer “encorajar as pessoas a serem esperançosas e a sentirem-se equilibradas. Uso ferramentas desses dois mundos, tanto a sabedoria antiga quanto a maquilhagem mais moderna, e faço isso para que as pessoas percebam o seu valor e prosperem livres de equívocos”, diz Nishimura ao TAB.

Nishimura viaja o mundo para falar de empoderamento e beleza, tratando a comunidade LGBTQ+ e, de maneira mais ampla, pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade. O seu empenho atraiu a atenção de um individuo. “Conversamos sobre como a sua mãe era intolerante em relação à sexualidade dele por motivos religiosos, e ele procurava ajuda sob uma perspectiva budista. Aprendi no budismo que não temos que sentir culpa por ser quem somos. Hoje ele envia-me fotos usando maquilhagem e saia. Eu amei”, conta.

Nishimura também realiza trabalhos convencionais de maquilhagem para artistas e empresas. “Conheci várias mulheres trans, e notei que elas poderiam beneficiar-se com técnicas melhores de maquilhagem. Ensino as pessoas a como cobrir os tons da barba e a dar uma expressão facial mais redonda e suave ao rosto, para que elas possam parecer com como se sentem por dentro. Sei o que é o desejo de parecer da forma como me sinto por dentro e como isso empodera um indivíduo”, diz.

O maquilhador participou do projecto fotográfico “Out In Japan”, que pretende dar visibilidade às minorias sexuais do Japão por meio de retratos de pessoas LGBTQ+ feitos por fotógrafos aclamados.

“Pensei que você fosse bicha”

“Minha sexualidade não é masculina nem feminina. Identifico-me como ‘género privilegiado’ e isso faz com que eu simpatize com vários géneros”, afirma.

A questão de género logo surgiu na preparação de Nishimura, antes de se tornar monge. No Japão, é comum o banho público em que homens dividem a mesma banheira ao mesmo tempo. Também era assim durante o período em que Nishimura fazia a sua preparação religiosa, ao lado de outros homens. Numa ocasião, após sair do banho num templo onde fazia a sua formação, ele foi apanhado de surpresa por uma frase disparada à queima-roupa por um colega: “Na primeira vez que o vi, pensei que fosse ‘bicha'”.
Nishimura sentiu-se violado e vulnerável. Por que esse assunto aqui e agora?, pensou. A cena revela o tipo de preconceito que Nishimura enfrentou entre outros budistas. Ele próprio tinha receios sobre as consequências da sua escolha. “Eu temia não poder mais sair e continuar sendo eu mesmo, se me tornasse monge”, afirma.

Confuso entre homem e mulher

O budismo na sua essência não discrimina sexualidade ou género. Todos são tratados igualmente. “A questão central do budismo é o sofrimento, a sua origem e sua extinção. […] No budismo não há visão criacionista determinante de géneros, nem é uma religião de fertilidade, o prazer pode realizar-se de várias formas, sem culpa ou julgamento de um sagrado”, diz Tetsuji.

Para Nishimura, a questão de género iria ressurgir noutros momentos. Durante o treino, os futuros monges eram separados entre homens e mulheres. “Eu sentia-me confuso quando eles apresentavam coreografias diferentes para homens e mulheres. Num ritual, homens tinham que passar por cima de uma urna de incenso com a perna esquerda, enquanto as mulheres usavam a direita. Decidi questionar o meu mestre. Ele respondeu que direita ou esquerda não importa, porque o ensinamento de igualdade é a base de nossa denominação, e a coreografia foi criada depois desse ensinamento. Assim, eu poderia escolher aquilo que me deixasse mais confortável. Senti-me validado para me tornar monge, permanecendo fiel a quem sou”, diz.

Queria ser uma princesa

Nem sempre Nishimura teve essa confiança. Durante a infância, ele viu-se isolado na escola por se sentir envergonhado. Na época, não queria ser monge. “Queria ser uma princesa. Eu vestia uma minissaia de minha mãe e dançava as canções da Disney”, lembra.
Certa vez, foi chamado de “bicha” no colégio e decidiu não conversar mais com os outros colegas. Quando chegou o momento de optar por uma faculdade, escolheu estudar nos EUA, influenciado pelas mensagens de liberdade propagadas por músicas e filmes americanos. Estudou Artes em Nova Iorque e aprendeu a pintar e desenhar. Foi nessa época que a maquilhagem virou profissão e um elemento importante de autoafirmação.

Numa ocasião, a sua melhor amiga nos Estados Unidos estava passando por dificuldades com o seu trabalho de escola. “Eu faria qualquer coisa para encorajá-la, então decidi maquilhar a sua pessoa”, diz.

Com um pouco de delineador e maquilhagem, notou que a personalidade dela desabrochou. “Senti a sua alegria reflectida em mim. Isso fez impulsionar o meu desejo de dominar a arte da maquilhagem para que eu pudesse apoiar as pessoas importantes da minha vida. Em minha própria jornada para encontrar valor e beleza internas, percebi uma missão em ajudar pessoas que sentiam o mesmo que eu”, afirma.

Monge de salto alto

De volta ao Japão, Nishimura já era um maquilhador estabelecido quando iniciou a sua preparação para ser monge budista. Lembra-se da cena na saída do banho descrita acima? Na sequência, o jovem curioso fez uma série de perguntas embaraçosas. E Nishimura pensava em como responder. Foi então que colegas intervieram e disseram que o futuro monge era maquilhador e trabalhava em Nova Iorque para o concurso Miss Universo. O curioso ficou surpreso e se calou.

Foram dois anos de preparação, cinco sessões de duas a três semanas de treinamento intenso, divididos entre dois templos, um em Kyoto e outro em Tóquio. Prestes a completar sua formação e obter o certificado de monge, em 2015, Nishimura começou a temer se seria capaz de se expressar. “Nós aprendemos preceitos como ‘não usar perfume’, ‘não beber’, ‘não ouvir música ou dançar’. Não queria insultar ou causar preocupação aos outros monges ao me expressar. Desde da minha época em Nova Iorque,  eu gostava de usar maquilhagem, calçar salto alto e vestir algo brilhante”, diz.

Nishimura, então, foi partilhar a sua preocupação com seu mestre. E ouviu dele que, no Japão hoje, monges usam relógios e vestem roupas casuais. “Se isso ajuda-o a espalhar a mensagem de igualdade de Buda, então eu não vejo problema”, concluiu o mestre, cujo nome Nishimura prefere manter no anonimato.

Modernização do budismo

A aprendizagem de Nishimura reflecte uma tendência verificada no budismo japonês desde o final da Segunda Guerra Mundial. Segundo Ronan Alves Pereira, professor aposentado no seu artigo “O Budismo Japonês: Sua História, Modernização e Transnacionalização”, até o fim do conflito, “budistas de índole mais progressista esforçaram-se para reformar a estrutura e prática feudais dessa tradição religiosa. Alguns associaram-se a socialistas e cristãos unitarianistas, e procuraram harmonizar a doutrina e a prática budistas com ideias modernas relativas à ciência, aos direitos humanos e à sexualidade”.

Com o fim da guerra, “percebem-se contínuos esforços em modernizar o budismo. Esses esforços traduzem-se na tentativa de estabelecer o budismo como a base para ‘um novo humanismo’; no questionamento das doutrinas tradicionais à luz da ciência moderna […]; no esforço em ligar a doutrina com a vida diária das pessoas e com a necessidade de trabalhos sociais”, escreve Alves Pereira.

“Precisamos partir do ensinamento budista, o que está escrito nos sutras [textos religiosos], e mesmo assim Buda nunca os proferiu como um dogma ou mandamento, devendo mesmo ser interpretado, experimentado e contemporizado em tempo e espaço. Há escolas que determinam códigos monásticos rígidos para homens ou mulheres, heteros ou não, e o celibato é um deles. Outras escolas permitem o casamento”, diz Tetsuji.

“Para o budismo, tanto faz você ser hetero ou homossexual, estamos todos no Samsara, o Mundo dos Sofrimentos explicado pelo Buda Shakyamuni. O desejo sexual não determina a sua libertação no Nirvana, mas como ele reage. E o sentido da vida budista é justamente sair desses ciclos de tormentos mentais que permeiam tanto os heteros quanto os LGBTQ+, afinal, independentemente do desejo manifesto, funcionamos todos da mesma forma”, acrescenta.

Entre Buda e celebridades

Nishimura diz ter uma rotina flexível em Tóquio. Como monge, é responsável por conduzir cerimónias como funeral, casamento e eventos sazonais. Também canta o nome de Buda, liturgia que faz parte do Jodo Shu, denominação budista à qual pertence.
No budismo, cada denominação tem as suas próprias regras. No Jodo Shu, espera-se que os monges cantem o nome de Buda para alcançar a Terra Pura. Em linhas gerais, os monges do Jodo Shu devem cantar, estudar e manter-se limpos.

Os monges dessa denominação também têm permissão para casar. O casamento de monges foi permitido durante a era Meiji (1868-1912). Um decreto de 1872 autorizou os monges budistas a comerem carne e a casarem. Na época, a intenção era enfraquecer o budismo no país. Nem todas as denominações adoptaram a regra e continuaram praticando o vegetarianismo e o celibato. Os monges do Jodo Shu adequaram-se ao decreto, acreditando que eles poderiam caminhar junto aos não-praticantes.

No Japão, com a tendência de queda do número de monges budistas, é comum filhos de monges poderem herdar o templo dos pais caso eles também se tornem monges. Esse seria um recurso para permitir a sobrevivência do budismo no Japão.

Na sua denominação, uma vez monge, Nishimura será monge para sempre. Mas, por uma questão de sobrevivência, ele pode procurar trabalho para obter o seu sustento financeiro.

Quando tem oportunidade, Nishimura participa da liturgia junto com o seu pai pela manhã e, à tarde, segue para dar curso de maquilhagem.

Noutras ocasiões, quando está viajando em trabalho como maquilhador, aproveita um breve momento no hotel para meditar. Além de fazer a maquilhagem das candidatas do Miss Universo, Nishimura também faz trabalhos para comerciais, revistas e celebridades, como Andrew VanWyngarden, músico do MGMT, e a dupla Chloe x Halle.

“Eu adoro a forma como consigo viajar e explorar o mundo, tanto como monge quanto como um maquilhador freelancer. Isso me proporciona oportunidades surpreendentes”, diz.

Artigo via TAB e adaptado por Portal do Budismo.

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