Política sem Agressão | Dzogchen Ponlop Rinpoche.

Hoje em dia, parece ser difícil ter empatia para com as pessoas que discordem de nossas visões e práticas políticas e crenças. Em muitas situações políticas, parece que somos “nós contra eles”. Assim, como podemos aumentar a nossa capacidade de ter empatia e construir uma ponte entre opostos? E por que deveríamos ter empatia para com “o outro”? Uma boa razão pela qual deveríamos ter empatia pelo “outro” é que, se quisermos construir algo grandioso, um ambiente cooperativo é realmente necessário, aonde todos se unem e trabalham juntos. Este é o primeiro ponto. Também é bom lembrar que às vezes tendemos a exagerar as coisas. Quando há sofrimento, o exageramos. Quando há felicidade, a exageramos também. Por vezes, exageramos até mesmo o valor de nossas realizações. Essa tendência impede-nos de ver as coisas claramente. Portanto, precisamos estar atentos para a nossa tendência a exagerar as coisas, e tentar ver claramente se as coisas realmente são tão negativas quando pensamos que elas sejam. Pesquisas comprovam que temos uma forte tendência a nos inclinarmos em direcção a pensamentos negativos. Então, primeiramente, temos de estar atentos para isso. Podemos observar a nossa própria mente e ver quais são os nossos preconceitos e como eles tem nos impedido de ver o panorama geral, ou nos impedido de aprender algo útil.

Também precisamos notar que a divergência construtiva é na verdade muito benéfica. É como fazer uma avaliação de como estão as coisas – seja no campo da política, ou no caminho espiritual, precisamos reavaliar a situação repetidas vezes. Por vezes nos envolvemos em conversas sobre política aonde muita tensão surge. É nessa hora que devemos parar e ver se há algum benefício em seguir conversando, ou não. Será este o momento em que deve deixar para lá? Ou talvez exista uma maneira de dirigir a conversa para maior abertura e empatia? Os ensinamentos do Darma dizem isso também, que precisamos reavaliar continuamente a nós próprios – reavaliar como vai a nossa prática, como vão os nossos estudos.Portanto, precisamos ver que a divergência pode ser construtiva. Ou seja, na verdade ela não é algo ruim. É impossível que todos concordem com a mesma coisa! Nem mesmo dois companheiros concordam o tempo todo, como bem sabemos. Dá pra imaginar se todos concordassem com as mesmas coisas? Isso é quase impossível, como sabe. Com um sentimento saudável de divergência, temos que encontrar uma forma de fazer compromissos e ver o que seria mais benéfico ao país, às pessoas, ao mundo e aos seres sencientes. A jornada da vida, de estarmos todos juntos no samsara (roda da vida), é uma jornada de compromissos. Mesmo quando estás a conduzir, deve-se comprometer com os outros condutores na mesma estrada. Temos que apreciar o facto de estarmos na mesma estrada juntos. Não é como se a estrada pertencesse a si, sabe? Não importa se somos conservadores, liberais ou qualquer outra coisa. Temos que abandonar tais rótulos se queremos ter um diálogo construtivo. É necessário um sentimento de entendimento mútuo, de escuta mútua, e uma tentativa de ver o que se pode aprender um com o outro. Normalmente existe sabedoria nas palavras de cada um, nos seus processos mentais, se estivermos abertos a isso. Se não estamos ouvindo, se não abrirmos a nossa mente ao menos um pouco, nunca ouviremos nada de novo. A sabedoria nas palavras de cada um, nos seus pensamentos, nunca nos alcançará. Se todas essas vozes de sabedoria se unirem, poderemos ver mais harmonia do que conflito. E se estiver numa discussão política e alguém se tornar realmente hostil? Qual é o acto mais engenhoso que se pode ter nesse caso?

Nem sempre é possível transformar uma situação hostil numa divergência construtiva, na qual pode simplesmente concordar em discordar. Em momentos assim, talvez precise somente desapegar-se. Contudo, mesmo que não seja viável seguir a conversa naquele momento, sempre pode retomá-la mais tarde e tentar outra vez. Com o tempo, a conversa pode acabar mudando de figura. Podemos ser capazes de nos reencontrar com aquela pessoa noutro momento e sentir algum tipo de cordialidade.

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