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Presente Envenenado | Buda

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Um insensato ouviu dizer que o Buda pregava que devemos devolver o bem pelo mal e o insultou.

O Buda guardou silêncio. Quando o outro acabou de insultá-lo, perguntou: “Meu filho, se um homem recusasse um presente , de quem seria o presente?” O outro respondeu “De quem quis oferecê-lo”. “Meu filho” replicou o Buda, “Tu me insultaste, eu recuso o teu insulto e este fica contigo. Não será isso por acaso um manancial de desventura para ti?”. O insensato se afastou envergonhado, porém voltou para refugiar-se no Buda.

Extraído do livro “Buda” de Jorge Luiz Borges

O Duelo de Buda

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Um dia Sidarta Gautama, o Buda, estava no jardim de Anathapindika, na cidade de Jetavana, Índia, quando lhe apareceu um Deva (espírito da natureza) em figura de brâmane e vestido de roupas brancas como a neve, e entre ambos se estabeleceu o seguinte “duelo”:

O Deva:
– Qual é a espada mais cortante?

Ao que Buda respondeu:
– A palavra raivosa é a espada mais cortante.

– Qual é o maior veneno?
– A inveja é o mais mortal veneno.

– Qual é o fogo mais ardente?
– A luxúria.

– Qual é a noite mais escura?
– A ignorância.

– Quem obtém a maior recompensa?
– Quem dá sem desejo de receber é quem mais ganha.

– Quem sofre a maior perda?
– Quem recebe de outro sem devolver nada é o que mais perde.

– Qual é a armadura mais impenetrável?
– A paciência.

– Qual é a melhor arma?
– A sabedoria.

– Qual é o ladrão mais perigoso?
– Um mau pensamento é o ladrão mais perigoso.

– Qual o tesouro mais precioso?
– A virtude.

– Quem recusa o melhor que lhe é oferecido neste mundo?
– Recusa o melhor que se lhe oferece quem aspira à imortalidade.

– O que atrai?
– O bem atrai.

– O que repugna?
– O mal repugna.

– Qual é a dor mais terrível?
– A má conduta.

– Qual é a maior felicidade?
– A libertação.

– O que ocasiona a ruína no mundo?
– A ignorância.

– O que destrói a amizade?
– A inveja e o egoísmo.

Qual é a febre mais aguda?
– O ódio.

– Qual é o melhor médico?
– O Buda.

O Deva então faz sua última pergunta:
– O que é que o fogo não queima, nem a ferrugem consome, nem o vento abate e é capaz de reconstruir o mundo inteiro?

Buda respondeu:
– O benefício das boas ações.

Satisfeito com as respostas, o Deva, com as mãos juntas, se inclinou respeitosamente ante Buda e desapareceu.

(Trecho extraído do livro Buda – Aquele que Despertou)

 

Estátuas de Buda renascem no Afeganistão.

Destruídos por fundamentalistas talibãs em 2001, os Budas de Bamiyan voltaram à vida virtualmente, graças a um super projector adquirido por casal chinês.

Apesar de o Vale de Bamiyan ser, actualmente, uma região quase na sua totalidade islâmica, situado a 230 quilómetros da capital afegã, Cabul, no passado foi um importante centro do budismo. Desde o século II d.C., o vale era habitado por um grande número de monges, que habitavam em mosteiros, e eremitas, que se refugiavam em cavernas, deixando uma rica produção religiosa e cultural.

Um dos grandes exemplos deste legado foram as enormes estátuas de Buda esculpidas na pedra, construídas no século VI e declaradas como património mundial da UNESCO.

Em Março de 2001, o regime talibã sinalizou as estátuas como ídolos, acabando por as destruir com o recurso a dinamite. Esta foi uma perda irreparável para a humanidade. Catorze anos depois, no início do mês de Junho, os monumentos puderam, novamente, ser admirados em tamanho real, com a ajuda de uma projecção 3D a laser.

Desolados com o ato de destruição, Janson Yu e Liyan Hu, um casal de aventureiros chineses, adquiriram um projector sofisticado, que permitiu que os Budas voltassem a ganhar forma. De acordo com o site NDTV, o casal pediu autorização ao governo afegão e à UNESCO para realizar um evento de uma noite, com direito a dança e música, que iluminasse as cavidades vazias onde os Budas estiveram por 1500 anos. Cerca de 150 pessoas estiveram presentes no espectáculo que, de acordo com o departamento local de protecção a relíquias culturais, deve se repetir, anualmente, no mês de Março, uma vez que o casal doou o equipamento às autoridades.

Eu acho que isso pode, pelo menos, dizer às pessoas que ali já existiu um lugar lindo, com uma cultura profunda e uma longa história. Nós esperamos que o uso da tecnologia de iluminação possa mostrar o nosso respeito à cultura e à história”, referiu Liyan Hu, em declarações ao canal televisivo chinês CCTV.

Recentemente, o Estado Islâmico tornou-se o inimigo número um dos patrimónios da humanidade, destruindo diversos sítios na Síria e no Iraque, e inclusive queimaram livros e manuscritos raros.

A Eloquência do Silêncio segundo Buda

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Não há poder como o silêncio. Buda declarava: «Quando não tiveres nada importante para dizer, guarda um nobre silêncio», ou ainda: «Se não podes melhorar o que foi dito, observa o silêncio.»

As palavras não são coisas nem os factos, e muito menos as experiências. A palavra é um signo convencional, um artifício que muitas vezes engana, limita e falsifica. Como assinalava Lao-Tsé: «Aquele que sabe não fala.» Querer dizer em palavras o que está para além do conhecimento conceptual é impossível e absurdo. O silêncio é mais revelador do que todas as palavras do mundo, e uma das maneiras mais fecundas de meditação é a do silêncio, ou meditação de esvaziamento, para que brilhe a luz do ser.

In “Os melhores contos espirituais do Oriente” Esfera dos Livros 2006

 

O Buda não era Budista

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Quando Buda deu ensinamentos ele não pretendia criar uma religião, mas movido pela sua compaixão aspirava libertar os seres do sofrimento. Buda na realidade não ensinava budismo, mas apenas dava ensinamentos e práticas em diversos níveis, de acordo com a capacidade de cada um, para que os seres pudessem  libertar-se do samsara, a existência cíclica. O budismo não é apenas mais uma filosofia, uma psicologia, uma terapia ou uma religião ou mesmo uma ciência (embora se utilize delas para seu objectivo).

Como diz Namkhaï Norbu Rinpoche:

Vivemos na nossa dimensão humana limitada. Colocamos tudo numa caixa limitada, inclusive o nosso mestre, nosso maravilhoso mestre que está proporcionando ensinamento para solucionar este tipo de problema e limitação, muito facilmente o colocamos numa caixa limitada. Até o ensinamento do Buda se desenvolve de um modo limitado. Não obstante, desde o começo o Buda nunca ensinou algum tipo de limitação. Nem sequer disse: “O meu ensinamento chama-se budismo e é diferente dos outros”. Ele disse que havia descoberto um conhecimento além das limitações e que queria comunicar esse conhecimento a todos os seres humanos. Ainda que Buda dissesse isso e tratasse de comunicá-lo repetidamente, as pessoas não podiam entendê-lo. Vemos que tão logo Buda manifestou o Parinirvana, sua manifestação da morte, imediatamente seus discípulos dividiram-se em dezoito escolas diferentes, e cada uma delas dizia: “O nosso ponto de vista é exactamente o que disse Buda”. Todos tinham um pedacinho da verdade, porém não toda a verdade semelhante ao exemplo que o Buda deu sobre os cegos que queriam saber como era o elefante.

Através de um ponto de vista como este nunca descobriremos o significado real que existe além dele.

Segundo o Tantra Dode Kalpa Zangpo, o Buda disse:

“Manifestei-me de um modo onírico para seres oníricos e dei um dharma onírico, mas na realidade nunca ensinei e nunca apareci”.

O Buda manifestou-se de uma forma relativa, para seres relativos. E deu ensinamentos relativos, mas de um modo absoluto nunca apareceu, pois sua essência é o Dharmakaya a vacuidade, como também jamais poderia colocar a Verdade Absoluta em palavras, pois toda linguagem é relativa.

No Vajracchedika Sutra lemos:

Os Grandes, Que São Perfeitos Além dos Ensinamentos, Não Enunciam nenhuma Palavra de Ensino.

“Subhuti, o que pensais? O Tathagata atingiu a Realização do Incomparável Esclarecimento? Tem o Tathagata um ensinamento para enunciar?”

Subhuti respondeu: “Como entendo as palavras do Buddha, não há nenhuma formulação de Verdade chamada Realização do Incomparável Esclarecimento. Além disso, o Tathagata não tem nenhum ensinamento elaborado para enunciar”.

Por quê? Porque o Tathagata disse que a Verdade está além da compreensão e é inexprimível. Ela nem é nem não é”. “Assim é, portanto, que este Princípio Não-Formulado vem a ser a fundação dos diferentes sistemas de todos as sábios”.

E ainda segundo o mesmo Sutra:

Palavras não podem expressar a Verdade.

Aquilo que as Palavras expressam não é a Verdade.

“Subhuti, não afirmeis que o Tathagata concebe a idéia: ‘Eu indiquei um Ensinamento’. Pois se qualquer um disser que o Tathagata indicou um Ensinamento esta pessoa realmente calunia o Buda, e é incapaz de explicar o que ensino. Para qualquer sistema que pretenda declarar a Verdade, a Verdade de fato não é declarada; apenas damos a estes sistemas o nome de ‘uma declaração da Verdade”.

Até os próprios Ensinamentos são relativos, pois as palavras não podem descrever e conceituar o Absoluto, são como sinais de trânsito apontando o caminho para a Verdade, mas não são a própria Verdade. Na realidade o caminho também não existe porque a Verdade não vai nem vem, sempre esteve aqui e agora connosco, o tempo todo desde sempre, não havendo necessidade de dar um só passo para encontrá-la.

Lemos no Maha Prajna Paramita Sutra:

“Na realidade não há olhos, nem ouvidos, nem nariz, nem língua, nem sensibilidade do contacto, nem mente. Não há visão, audição, olfacto, gustação, tacto, nem processo mental, nem objectos desse processo mental, nem conhecimento, (consciência) nem ignorância. Não há destruição de objectos ou cessação de conhecimento, nem cessação de ignorância.

Na Realidade não existem as Quatro Nobres Verdades: não há Dor, nem causa da Dor, nem cessação da Dor, nem Nobre Caminho que leva à cessação da Dor. Não há decadência ou morte, nem destruição da noção de decadência e morte. Não há o conhecimento do Nirvana, não há obtenção do Nirvana, nem não-obtenção do Nirvana”.

Como observa D.T. Suzuki:

“No caso do Buda, uma convicção real e pessoal sobreviveu primeiro; depois, veio a construção lógica, para dar apoio à convicção. Na verdade não importava muito que essa construção fosse satisfatoriamente completada, pois a convicção, isto é, a própria experiência, era um fato consumado”.

“Na nossa vida diária, estamos sempre discutindo coisas a partir da premissa de uma experiência tão arraizada na consciência que não conseguimos livrar-nos dela. E estamos, por isso, escravizados a ela. Quando despertamos para a realidade desta escravidão, ingressamos na vida religiosa e é nessa vida religiosa que a experiência é tudo em tudo, não havendo necessidade alguma da lógica. Para algumas mentalidades, o Budismo parece racionalista por causa da referência que faz às Quatro Nobres Verdades, à Roda da Vida, ao Caminho Óctuplo etc… Mas devemos nos lembrar de que todas estas construções sistemáticas se seguiram à experiência por que passou o Buda sob a árvore Bodhi “.

Segundo esses ensinamentos aprendemos que todos os seres têm a natureza búdica perfeita, não há nada a ser adquirido ou modificado, apenas devemos descobri-la.

Somos todos Budas, mas esquecemos disso! E para nos lembrarmos recorremos aos ensinamentos dos mestres.

O Buda disse ainda:

“Apesar de eu não ter aparecido em lugar algum, apareço em todos os lugares para aqueles que gostam da aparência”.

Para aqueles que não gostam da aparência, sou sempre a vacuidade.

Apesar de eu nunca ter falado, falo para aqueles que gostam do som. Para aqueles que não gostam do som, permaneço silencioso.

Apesar de minha mente nunca ter pensado qualquer coisa, para aqueles que pensam que minha mente é omnisciente, ela é omnisciente. Para aqueles que pensam que minha mente não existe, minha mente não existe.

Quem quer que queira ver-me gradualmente pode ver-me gradualmente. Quem quer que queira ver-me instantaneamente pode ver-me instantaneamente. Tudo o que for desejado será atingido. Esta é a qualidade do meu corpo.

Quem quer que queira ouvir-me gradualmente pode ouvir-me gradualmente. Quem quer que queira ouvir-me instantaneamente pode ouvir-me instantaneamente. Tudo o que for desejado será atingido. Esta é a qualidade da minha fala.

Quem quer que queira conhecer minha mente gradualmente pode conhecer minha mente gradualmente.

Quem quer que queira conhecer minha mente instantaneamente pode conhecer minha mente instantaneamente. Tudo o que for desejado será atingido. Esta é a qualidade da minha mente”.

Todas as escolhas, todos os caminhos são relativos como pontos no espaço, mas estes são também espaço. O relativo é o absoluto e não podem ser separados.

Segundo Muntik Trengwa:

A essência primordialmente pura é despida de toda base de expressão:

A natureza espontaneamente realizada é perfeita não importa em qual aparência”.

O mestre Padmasambhava disse:

A consciência fresca no presente

Tem uma essência vazia, o Corpo Absoluto;

Uma natureza luminosa, o Corpo de Felicidade,

E um modo de emergência variado, o Corpo de Aparição.

Não podemos procurar o Buda algures.

Mesmo meditando, permaneçamos no frescura de quem não medita;

Mesmo olhando, permaneçamos no frescura de quem não olha;

Mesmo nos apegando, permaneçamos no frescura de quem não se apega;

Mesmo nos projectando, permaneçamos no frescura de quem não se projecta;

Mesmo reabsorvendo, permaneçamos no frescura de quem não reabsorve;

Mesmo distraídos, permaneçamos no frescura não distraído;

O que quer que surja, esse frescura que está em nós.

É um estado claro como o oceano límpido;

Onde felicidade, claridade e ausência de discurso estão espontaneamente presentes.

Sob a árvore bodhi, antes do amanhecer, Sidharta Gautama percebeu directamente a estrela da manhã, e despertou além de todo despertar, exclamando:

“Eu, a vasta terra e todos os seres somos iluminados manifestamos sem esforço o grande caminho. Sou o universo vivo. Sou os seis reinos da transmigração. Tudo isso, funcionando harmoniosamente, já é a iluminação”.

Autor: Karma Tenpa Dharguye

Porque é que os Budistas veneram Buda ?

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Buda não é venerado porque os seus devotos o vêem como um Deus para venerar , mas sim porque ele é o melhor professor, a personificação da iluminação. A palavra sânscrita Buda significa “o desperto ou iluminado”, aquele que percebeu a verdade. Em tibetano, a palavra que é traduzida, Sang-gyé, tem duas sílabas, “sang”, que significa que ele tinha “dissipado” tudo o que era negativo e que obscurece a sabedoria e “despertado” a partir da noite escura da ignorância, e “gyé” que significa que ele tinha “desenvolvido” tudo  o que de facto era positivo, todas as qualidades espirituais e humanos que existem, que podem ser condensadas em sabedoria e compaixão.

 

Matthieu Ricard

Tudo o que Buda ensinou em 2 palavras

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Quando lhe pediram para resumir os ensinamentos de Buda numa frase, Suzuki Roshi simplesmente disse: “Tudo muda.”

Todo o mundo sabe disso, pelo menos intelectualmente, que toda a criação está num estado de revolução sem fim. O filósofo grego Heráclito disse a famosa frase: “Nenhum mesmo homem pode percorrer o mesmo rio duas vezes, já que tanto o homem quanto o rio mudaram desde então.”

Impermanência é a própria natureza da vida.

Na verdade, a mudança é apenas outra palavra para vida-“viver” significa “mudar.” Mas poucas pessoas passam pela vida verdadeiramente consciente deste facto. Nós “entendemos” isso, mas esse entendimento (ou ”conhecimento”) falha em influir em nosso comportamento. Nós simplesmente ignoramos a forma como as coisas realmente são. Assim, o ponto desta discussão não é explicar a impermanência para si, mas para aponta-la; para acordá-lo para a verdade da mudança.

Alan Watts costumava comparar a vida à música. O ponto/propósito da música é música, ele diria. As pessoas gostam de ouvir música pelo ritmo, o fluxo da melodia. Ninguém escuta música para ouvi-la terminar. Se fosse assim, então, como Watts apontou, as suas músicas favoritas seriam as que terminaram abruptamente com um único barulho de ruído. A vida é da mesma forma.

O ponto e propósito da vida é a própria vida, participar da melodia. Melodias são como pequenas correntes de água; elas estão a fluir. Não pode moldá-los ou prende-los. Quando faz isso, não há fluxo. Isso é a morte.

A única maneira de participar da melodia é através da consciência desperta. Uma simples consciência desperta é fluida. Uma mente simples perde o seu sentido de individuo/self/ego na música, ao passo que uma mente egocêntrica continua tentando fazer uma pausa na música. Nós forçamos muito em ouvir o que queremos ouvir, em vez de movermo-nos com a música, viver. Estamos acostumados a recuar, como um espectador, um ouvinte tentando pegar o ritmo. Queremos possuir e segurar esse ritmo, essa batida, e se identificar com ela.

Não é o suficiente para nós apreciar a música. Nós temos que saber a letra. Assim, pausamos a música a toda hora e voltamos, a fim de guarda-la na memória e te-la como ”nossa”.

O ego cria um sentido de identidade ou significado a partir de suas interações com “outro”.

Essas interacções produzem um ”recibo”, que o ego tenta colectar e preservar. Ao invés de apreciar o espectáculo em primeira mão, o ego tira fotos e filma o espectáculo, para que ele possa falar sobre isso e partilhar as fotos mais tarde. O rio da vida está sempre fluindo, mas para o ego, cuja existência depende de congelar esse fluxo de mudanças, a flutuação é aterrorizante, e é por isso que chamamos isso de impermanência.

Do ponto de vista pessimista do ego, flutuação e mudanças representam uma ameaça à sua estabilidade, mas no estado sem referencial de simples consciência desperta,  o espaço que permite o fluxo ou a mudança é o útero de vitalidade. A vida, a adaptação emerge deste espaço. O ego procura ignorar este espaço enchendo-o de credenciais e solicitações de depoimentos e testemunhos.

O ego é um grande coleccionador.

Ele mantém todos os recibos, comprovativos, e cada memória que lhe dê razão e existência. Numa mente egocêntrica não há espaço, não há espaço para respirar. Mas no fundo, o ego sabe que a coisa toda pode ruir a qualquer momento. Ele lembra-se do espaço, a lacuna silenciosa entre cada nota que permite que a música flua. Essa memória assombra o ego. Produz paranóia e insegurança.

Esta insegurança é o benfeitor que justifica a obsessão do ego com a colecta desses ”recibos”.  Uma mente egocêntrica é co-dependente, e essa co-dependência faz de tudo para evitar o espaço, flutuação. O ego é dependente de relacionamento ou de entretenimento, o que exige a separação.

Assim, o ego tem que pensar em si mesmo como uma entidade distinta. Tem que separar-se da vida. Defender esta estratégia segregacionista é necessária para o ego. A separação é o fundamento sobre o qual o império do ego é construído.  Como resultado, é cronicamente insatisfeito ou sem vida.

Além do descontentamento e da insatisfação crônica, considere por um momento os problemas que alguém tem se considera a si mesmo como uma ilha ou uma entidade sólida em um mundo fluido.

As coisas mudam. No entanto, o rio não é a única coisa que muda. Segundo Heráclito, o mesmo acontece com o homem. Mas o ego se vê como imutável. Quando estamos no rio da vida com os pés plantados, como se nós fossemos uma ilha, a vida começa a sentir-se como uma parede enorme de água caindo em cima de nós.

Tomemos por exemplo, a transição entre ser solteiro e estar num relacionamento. Quando está solteiro, desenvolve um estilo de vida que não tem que levar em consideração outra pessoa. Pode acordar de manhã beber o seu café, ler o jornal, tomar café da manhã, ir trabalhar, ir para o ginásio, sair com os amigos e assistir o que quiser na TV. Mas quando mete uma outra pessoa na mistura, não pode continuar a operar da mesma forma. A situação mudou, por isso, seu modo de operar anterior esta desactualizado. 

Quando “eu” é uma entidade fixa ou um hábito de pensamento, essa transição é difícil. Se agarrar esta imagem desactualizada, o relacionamento vai começar a sentir-se claustrofóbico. Haverá um confronto após o outro. A intensidade vai continuar a aumentar ao longo do tempo, até que tudo, sua auto-imagem e o relacionamento(o homem e o rio)-acabam. 

O que pensamos sobre nós mesmos é desafiado pela mudança. Muitas pessoas dizem: “Eu não deveria ter que desistir de quem eu sou, a fim de estar num relacionamento.” Eu digo, senão desistir de quem é, então não está num relacionamento.

Na verdade, se não tem que desistir de quem é em cada momento de cada dia, então não está vivo. Estar vivo é estar em constante estado de revolução. Situações de mudança devem promover mudanças no nosso comportamento. Essa é a sanidade; permitir que novas informações para actualizar o meu ponto de vista. ”Meu ponto de vista”, (o homem, no exemplo de Heráclito), deve permanecer aberto ou fluido. “Tudo muda.”, Que é o ponto básico, de acordo com Shunryu Suzuki. Tudo. A economia, a política, o tempo, as relações, as nossas crenças, a nossa própria noção de identidade – estão em estado de flutuação. Quando estamos abertos a mudanças, a transição é relativamente suave. Nós estamos indo com o fluxo. Por outro lado, quando se tenta salvar todos os nossos ”recibos” , é ai que nos afogamos.

Não podemos nadar com as mãos cheias.

Uma mente aberta é uma mente sã. Uma mente aberta não é uma mente que dá a devida atenção a qualquer ideia, independentemente de quão ridícula ela possa parecer.

Uma mente aberta é um vaivém. É uma mente que não resiste à mudança. Uma mente aberta permite que o pensamento seja um reflexo da mudança. Deste ponto de vista, o pensamento é sempre fresco, porque a vida está sempre mudando. Este é o pensamento original, imaginação. Com consciência desperta, o homem e o rio fluem um no outro.

Temos que aceitar o facto de que não podemos querer sugar a felicidade a força do mundo simplesmente pegando a vida pelo pescoço e forçando-a ser do jeito que queremos que seja. Temos que ver que a vida é mudança, mudança é a vida; que eles são um na mesma coisa.

Tentar organizar fenómenos impermanentes em categorias permanentes do pensamento é como tentar arrebanhar gatos. Além disso, não estamos de alguma forma fora dessa mudança, nós somos a Vida. Nós somos mudança. Confusão e descontentamento surgem a partir da crença equivocada de que somos um substantivo, um nome. O contentamento emerge quando paramos de nadar contra a corrente e se estabelece na realização do facto de que somos uma corrente no fluxo. E essa corrente não é diferente do fluxo. É o movimento do fluxo.

Nós não somos um substantivo ou nome co-dependente que está no banco observando o fluxo de vida, mas sim um verbo que emerge do fluxo da vida.

Texto traduzido do artigo de Benjamin Riggs ”Everything the Buddha Ever Taught in 2 Words.” no site Elephantjournal

Versos de Louvar ao Buda

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I A face brilhante do Buda é gloriosa; A sua magnificência ilimitada. O seu radiante esplendor Está além de comparação. O sol, a lua e todas as jóias, Ainda que brilhem com uma luz deslumbrante, São completamente ofuscados e obscurecidos Como se fossem um monte de carvão.

 II O porte do Buda Está além de comparação em todo o mundo. A grande voz do Iluminado Ressoa através das dez direções. A sua moralidade, aprendizagem e esforço, Absorção na meditação, sabedoria E virtudes magnificentes não têm igual; São maravilhosas e insuperáveis.

III Ele medita profunda e diretamente No Dharma oceânico de todos os Budas. Conhece a sua profundidade E penetra até ao seu fundo derradeiro. A ignorância, a ganância e o ódio Estão ausentes para sempre no Honrado Pelo Mundo. Ele é o leão, o mais corajoso dos homens; A sua gloriosa virtude é ilimitada.

IV Os seus feitos meritórios são vastos: A sua sabedoria é profunda e sublime. A sua luz, a sua assombrosa glória, Abala o universo de milhares de milhões de mundos. Eu decido tornar-me um Buda, Igual a ti em realização, ó sagrado rei do Dharma, Para salvar os seres do nascimento e da morte, E os conduzir à emancipação.

V A minha disciplina quanto à generosidade, controle mental, Virtudes morais, tolerância e esforço, Bem como na meditação e na sabedoria, Será suprema e insuperável. Faço votos de que, quando me tornar um Buda, Levarei a cabo esta promessa em toda a parte; A todos os seres dominados pelo medo Darei grande paz.

VI Ainda que existam Budas Em número de milhões de kotis, E multidões de grandes sábios Incontáveis como as areias do Ganges, Farei oferendas A todos esses Budas. Procurarei o supremo Caminho Resoluta e incansavelmente.

VII Ainda que as terras de Buda sejam inumeráveis Como as areias do Ganges E as outras regiões e mundos Sejam igualmente sem número, A minha luz brilhará em toda a parte, Atravessando todas essas terras. Sendo esse o resultado dos meus esforços, O meu glorioso poder será imensurável.

VIII Quando me tiver tornado um Buda, A minha terra será supremamente requintada E os seus habitantes maravilhosos e inexcedíveis; O assento da Iluminação será sublime. A minha terra, sendo igual ao Nirvana, não terá comparação. Compadeço-me dos seres E resolvo salvá-los todos.

IX Aqueles que cheguem das dez direções Encontrarão alegria e serenidade de coração; Quando alcançarem a minha terra Residirão na paz e na alegria. Rogo a ti, o Buda, que sejas minha testemunha E que comproves a veracidade da minha aspiração. Tendo feito os meus votos perante ti, Lutarei agora por cumpri-los.

X Os Honrados Pelo Mundo das dez direções Possuem uma sabedoria sem impedimentos; Invoco esses Honrados Para que testemunhem a minha intenção. Ainda que tenha de permanecer Num estado de dor extrema, Praticarei diligentemente, Suportando todas as agruras com incansável vigor.”

SUKHAVATIVYUHA SUTRA – Transcrito para chinês durante a dinastia Ts’ao-Wei pelo mestre indiano do tripitaka, Samghavarman. Traduzido para o português pelo Rev. Murilo Nunes de Azevedo. Sobrebudismo.

Perspectiva de Buda sobre o Destino do Homem.

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Ao longo das nossas vidas, há muitos interesses com o qual estamos preocupados . Entre eles, o interesse sobre o destino com o qual estaremos preocupados. Então, qual é o destino? Quem controla o nosso destino? Qual é a perspectiva Budista do destino? Podemos mudar o nosso destino? E como podemos mudar o nosso destino? Estas são as questões que vamos discutir agora.

1. Qual é o destino

Contemplando o mundo, vemos uma variedade de homens. Alguns são ricos, enquanto alguns pobres; alguns são nobres, alguns humildes; alguns são bonitos, alguns feio; alguns estão doentes, alguns saudável; alguns são de boa sorte e alguns de infortúnio. Podemos duvidar de que todos nós somos seres humanos, mas porque somos variados ?. Costumamos atribuir isso ao destino. Se isso é chamado de destino, podemos questionar, ainda, quem faz o destino ou quem controla o destino.

2. Quem controla o destino

Para esta pergunta, há muitas respostas. Entre eles, três são aceites por muitos. Eles são, respectivamente, o teísmo, fatalismo e acidentalismo.

O teísmo crê em Deus ou num poder sobrenatural . Atribui o nosso destino ao poder de Deus . Deus é aquele que cria a nossa vida e projecta cada evento que acontece na nossa vida . Portanto, tudo o que acontece na nossa vida, se é bom ou ruim , é a criação de Deus ou a vontade de Deus . Somente Deus tem o poder de mudar o nosso destino. Nós , como seres humanos, não temos poder para mudar a nossa vida ou o nosso destino. Temos que confiar em Deus para mudar o nosso destino. É isso que devemos orar a Deus pela sua misericórdia.
Fatalismo sustenta que a nossa vida presente é predeterminada. Eles acreditam que cada evento que aconteceu , está acontecendo e o que vai acontecer é absolutamente predeterminado. É o destino se um individuo é rico ou pobre ,  sortudo ou azarado . Sob este ponto de vista , não temos esperança de mudar o nosso destino. O que podemos fazer é apenas para aceitar a nossa vida, porque esse é o nosso destino .
Acidentalismo promulga que tudo que acontece é tudo por acaso. Não há nem vontade nem o destino de Deus. Assim como as folhas que se desvanecem durante o Outono . Quando o vento sopra , algumas podem cair no meio de doces flores e algumas no poço escuro, sujo e malcheiroso . Seja no meio de doces flores ou no poço escuro, acontecem por acaso . Assim é o nosso destino . Por acaso, alguns podem ter felizmente nascido em famílias nobres e alguns podem ser , infelizmente, nascidos nas famílias humildes . Em uma palavra , a fortuna ou o infortúnio é apenas por acaso. Não há nenhum outro poder por trás deles . Sob este ponto de vista , não temos nada a ver com o nosso destino.
O três pontos de vista descritos, achamos difícil de aceitar , porque todas essas três visões são negativas. Todos elas negam o nosso poder de transformar as nossas vidas. Se assim for, o que é a esperança da nossa vida? Ou qual é o significado do nosso esforço que fazemos para melhorar a nossa vida?
Agora, vamos nos voltar para o Budismo e ver como o Budismo explica .

3. Perspectiva Budista do destino do homem

Neste sentido , o budismo oferece-nos uma resposta que é positiva e razoável. De acordo com o Buda, o nosso destino não é nem controlado por Deus, nem pré-determinada , nem por acidente. No entanto , o Buda disse Karma é a principal causa da nossa vida presente. Ou , até certo ponto , podemos dizer que é Karma que determina a nossa vida ou o nosso destino.
Se esta intriga-o , vamos ouvir uma história. Durante o tempo do Buda , havia um sábio chamado Suka que já visitou o Buda e perguntou ao Buda uma pergunta sobre o destino do homem . Ele diz : “Venerável senhor , eu vejo no mundo dos seres sencientes , alguns são de longa duração enquanto que alguns são de curta duração ; alguns estão doentes enquanto alguns são de boa saúde ; alguns são feios e alguns deles são de boa aparência ; alguns são fracos , mas alguns são fortes ; alguns são pobres, mas alguns são ricos ; alguns nascem nas famílias humildes, alguns nascem em famílias nobres ; alguns são estúpidos , mas alguns são inteligentes …… Qual é a causa ?
Em resposta a esta pergunta , o Buda diz: ” Todos os seres sencientes são “aderentes” do Karma , dependem de Karma e tem renascimentos de acordo com o seu Karma . Como tal, não parece ter a distinção de alta, média e baixa classe ou outro critério. Há Karma que possibilita gerar uma vida útil curta ou uma longa vida útil como o seu efeito. Há Karma que possibilita gerar algumas doenças ou muitas doenças com o seu efeito. Há Karma que capacita a pessoa a ser feio ou justo como seu efeito. Há Karma que possibilita gerar uma posição baixa ou uma alta posição como o seu efeito. Há Karma que capacita a pessoa a renascer na classe baixa ou na alta classe como o seu efeito. … Os seres são herdeiros do Karma . “
Aqui , pode-se questionar que, se o Karma é a causa do nosso destino , o nosso destino poderia ser mudado? Por isso, vamos prosseguir para discutir o próximo ponto.

4 . Podemos mudar o nosso destino

Para responder a essa pergunta , precisamos entender a teoria budista da Lei Kármica . Muitas vezes ouvimos o ditado: ” Faz o bem, é seres bom ; fazer o mal , é seres ruim. “O que semeia, é o que colhes .”  Este é o princípio essencial com base no qual a lei de Karma opera . De acordo com este princípio, até certo ponto , podemos dizer que a nossa vida actual é o resultado do nosso Karma passado, ou o nosso destino é determinado pelo nosso Karma passado. No entanto, isto não significa que cada evento que acontece na nossa vida actual é absolutamente um resultado da nossa Karma passado. Determinação é aguentada pelo fatalismo e é fortemente rejeitada pelo Buda. Se tudo o que acontece na nossa vida presente é absolutamente um resultado da nosso Karma passado, então, não há nenhuma esperança para nós para mudar o nosso destino e que também não tem sentido para nós a prática do Dharma , a fim de obter uma vida melhor no futuro , porque tudo está predeterminado.

A lei de Karma ensinado pelo fatalismo é um pouco mecânica , porque é estabelecido com base numa única causa e efeito único . No entanto , torna-se flexível quando esta lei é interpretada pelo Buda em conexão com a doutrina da origem dependente . De acordo com esta doutrina , tudo é condicionado ou coexiste . Não há nada que venha a estar sob uma única causa ou condição. Isto é para dizer que um Karma passado poderia ser a causa de um efeito presente . No entanto, sem condições causais , o efeito nem sempre acontece.

Para colocá-lo de outra maneira, podemos dizer que todo acto que criamos tem uma força potencial para amadurecer ou a possibilidade de trazer um efeito. Mas isso não significa que cada acção iria trazer um efeito. Quando as condições causais não estão lá , o efeito não teria lugar . Por exemplo, quando uma semente é semeada , de acordo com o ambiente do solo e algumas outras condições, tais como clima, luz do sol , o trabalho etc, a própria semente pode perecer ou então se tornar melhor. Então é Karma .
Quando colocamos a Lei Kármica na doutrina da origem dependente , vamos entender que o Karma passado pode ser a causa da nossa vida presente, mas isso não significa que a nossa vida presente é absolutamente o resultado da nossa Karma passado. Há condições causais que também precisamos de levar em conta.
E agora , podemos chegar a uma conclusão de que o nosso destino pode ser alterado , embora o Karma passado tem uma influência muito profunda sobre a nossa vida ou o destino presente. Isto é devido ao facto da causa por si só não trazer um efeito. Ela exige condições causais. Mesmo que criamos um monte de Karma negativo no passado, se fizermos o esforço agora para mudar as suas condições causais , podemos impedir os seus efeitos a ter lugar ou até mesmo alterar seus efeitos , às vezes.

5 . Como podemos mudar o destino

1. Disciplinar o nosso comportamento

2. Disciplinar  a nossa mente

A. A mente é o precursor de todos os estados (do mal) . A mente é o chefe. Se alguém fala ou age com a mente perversa , por causa disso , o sofrimento segue-o, assim como a rio desagua no mar.

B. A mente é o precursor de todos os estados ( bons ) afirma , a mente é o chefe ; e alguém fala ou age com a mente pura, por isso, a felicidade segue-o, assim como a própria sombra que nunca sai de nós.

Os Três Tipos de Preguiça

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“O Buda descreveu três tipos de preguiça. Primeiro há o tipo de preguiça que todos nós conhecemos: não queremos fazer nada e preferimos ficar na cama meia hora a mais do que levantar para meditar. Em segundo lugar, há a preguiça de nos sentirmos incapazes, pensando, “Eu não sou capaz fazer isso. Outras pessoas podem meditar, outras pessoas podem ser atentas, outras pessoas podem ser boas e generosas em situações difíceis, mas eu não posso, porque sou muito estúpido”. Isto é preguiça.
O terceiro tipo de preguiça é estar ocupado com as coisas mundanas. Podemos sempre preencher o vazio do nosso tempo, nos mantendo sempre muito ocupados. Estar ocupado pode até fazer com que nos sintamos virtuosos. Mas geralmente é apenas uma maneira de escapar. Quando saí do retiro na minha caverna, algumas pessoas disseram: “Você não acha que a solidão era uma fuga?” E eu respondi: “Fuga de quê?” Lá estava eu, sem rádio, sem jornais, sem ninguém para conversar. Para onde eu poderia escapar? Quando as coisas surgiam, eu não podia nem mesmo telefonar para um amigo. Eu estava cara a cara com quem eu era e com quem eu não era. Não havia como escapar.”

Fonte: Tenzin Palmo do livro “Into the Heart of Life”