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8 Lições do Budismo para Administradores

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Para que possa tornar-se uma pessoa melhor, em paz consigo mesmo e com o mundo, o Budismo traz os 8 caminhos que lhe ajudarão a potencializar o administrador que existe em si pois, antes de administrar qualquer coisa é preciso saber administrar-se a si mesmo. “Os Oito Corretos Caminhos” não significam uma verdade absoluta ou o julgamento de estar certo ou errado a partir de uma comparação, isto porque cada um sabe de sua verdade. Esses oito caminhos são uma forma de encontrar as respostas que precisa, sejam elas individuais, de sua equipa ou até mesmo de seus negócios, confira: 

Aprenda a ver as coisas como elas são – De uma maneira bem resumida, a correcta visão é ver o mundo e as atitudes das pessoas sem um ângulo negativo ou contaminado por percepções distorcidas, procurando assim manter uma visão de sabedoria e cautela diante daquilo que acontece. E a chave para isso é saber classificar as informações que recebe pois elas invariavelmente, mexem com as suas emoções e é de sua responsabilidade cuidar do que acontece com o seu emocional.

Procure olhar para si mesmo e perceber o que está sentindo, buscando interpretar as acções dos outros sem o peso da emoção exagerada, principalmente quando essas acções trazem pensamentos negativos a si. Analise os dois pontos de vista para descobrir qual deles mais te aproxima do que é verdadeiramente correto, justo e harmónico para o presente e para o futuro. De nada adianta ganhar no agora, se o saldo pode ser desastroso lá na frente.

Cuide dos seus pensamentos – O Caminho do Correcto Pensamento é a reflexão e análise de si mesmo para verificar se os seus pensamentos lhe trazem paz ou angústia. Isto não é tarefa fácil pois, os pensamentos surgem a todo momento e podem ser bons ou ruins, então percebê-los depende de muito treino, percepção e muita determinação, mas se conseguir chegar a 30% durante o dia, já fará uma grande diferença na sua realidade.

Procure saber exactamente em que está pensando, quais os sentimentos que isso lhe proporciona e por que está pensando desta forma. O que somos para fora é o reflexo do que pensamos para dentro. Se perceber que está sendo negativista ou mantendo uma postura de coitadinho, assuma isso e vire a mesa pois os pensamentos ruins, atraem coisas ruins.

Saber expressar é fundamental – Diferente da Correta Visão e do Correcto Pensamento, a Correcta Expressão é colocar para fora o que vemos e pensamos e dependendo do que se fala e da forma como se comunica, poderá envenenar a si ou a outra pessoa, ou até mesmo a sua equipa espalhando um clima pesado para todos os lados. As palavras que falamos, podem causar grande sofrimento ou alegria, tudo depende da forma como é colocada e isto dentro de uma empresa, relaciona-se ao feedback e qualquer tipo de interacção social.

Seja lá o que precise de dizer, antes de falar é importante pensar em qual o objectivo desta fala e caso isto não contribua muito para os resultados positivos que deseja, por pior que seja a situação, prefira o silêncio.

Veja bem, não estou dizendo para manter uma postura resignada, mas para pensar em como dizer o que pretende para que assim não se arrependa depois.

Atitude é tudo – De nada adianta ter uma visão correcta, um pensamento correcto e uma expressão adequada, se na hora de agir, coloca tudo a perder ao melhor estilo “Faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço” e isto dentro das empresas é mais comum do que se imagina.

Um bom líder é aquele que age de acordo com o que fala, que está engajado com a sua equipa, que se preocupa com a realização das pessoas e de um trabalho correto. Para fazer isso, algumas perguntas podem te ajudar: O que faz contrariar a sua consciência? O que faz, coincide com o seu plano de vida? Acredita que está fazendo o que deveria ser feito? Reflectir sobre suas respostas é fundamental para saber se está agindo de acordo com a sua verdade.

É preciso saber viver – Por mais cliché que seja esta frase, no budismo ela é muito verdadeira e implica aproveitar os momentos da sua vida pois, para todas as pessoas o dia contém 24 horas e um ano tem 365 dias. Aprenda a utilizar o seu tempo de maneira produtiva. Ao aceitar que o seu tempo é valioso, começa a perceber como pode utilizar cada hora do melhor jeito possível, sem distracções que pouco ou nada significarão ou contribuirão para um futuro melhor e não perceber isso é desperdiçar e violar o que tem de mais precioso – A vida.

Dedique-se ao máximo – Procure esforçar-se não somente para aquilo que faz, mas também para conhecer a si mesmo. Procure dedicar-se ao trabalho, aos colegas e tudo mais que possa influenciar a sua vida. Fazer coisas sem dedicação é como jogar pela janela o que de melhor existe em si e isso seria uma grande injustiça com os seus talentos e também com o impacto que a sua dedicação teria em seus resultados ou nas pessoas à sua volta.

O que mentaliza tem maiores probabilidades de acontecer – Já ouviu falar de Lei da Atracção? Isto se encaixa perfeitamente aqui. Diferente do correcto pensamento que é a observação daquilo que se passa na sua cabeça no momento presente, a correcta mentalização está direccionada para a reflexão sobre o futuro que deseja a si mesmo. Não permita que a mentalização negativa destrua os seus sonhos ou te impeça de crescer profissionalmente. Idealizar as coisas positivas, ajuda a afastar medos e negativismo. Mude a forma de mentalizar as coisas que as coisas mudam.

Aprenda a silenciar a sua voz interior – Concentrar-se é fundamental para a paz interior e também para atingir os seus resultados. A concentração, pode leva-lo a um caminho de sabedoria.

Ao concentrar-se acaba conhecendo mais a si mesmo e o mundo a sua volta, maximizando assim o seu potencial. Para silenciar a sua voz, a meditação é um bom caminho. Vale a pena experimentar.

Se aprender como aplicar os Oito Caminhos, voltando a atenção e disciplina para a maneira como vê, pensa, se expressa, age, vive, se dedica, mentaliza e silencia as suas vozes, terá dado um grande passo rumo ao desenvolvimento e administração do que quer que seja, tornando-se assim não somente alguém que gere conflitos ou resolve impasses e negociações, mas aquilo que todo bom administrador deve ser – Um grande líder.

Autora: Gisele Meter.

Breve História do Budismo | Padma Dorje

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Considerado um dos períodos mais sagrados no calendário do budismo, o Saga Dawa refere-se à comemoração do nascimento, iluminação e parinirvana do Buda Shakyamuni. O Saga Dawa é estabelecido, anualmente, de acordo com as fases lunares, no quarto mês do calendário tibetano, o que corresponde, no nosso calendário ocidental, a um período de aproximadamente 30 dias entre os meses de Maio e Junho.  Neste ano de 2015, o dia 2 de Junho foi o dia do Saga Dawa propriamente dito.  

Há 2.500 anos, quando ainda era príncipe, Sidarta abandonou a vida repleta de prazeres que tinha no seu palácio e partiu em busca de um caminho espiritual que fizesse sentido a ele. Em sua contemplação e meditação, Sidarta alcançou a iluminação, o estado desperto definitivo. A partir desse momento, aos 35 anos de idade, ele foi chamado de Buda, isto é, “o desperto”. Ele exemplificou, com a sua vida, como dedicar-se a realizar plenamente as potencialidades da mente e beneficiar os outros. Nós convidamos você a ler história de Buda Shakyamuni e do Budismo neste texto escrito por Padma Dorje

O BUDA

Milénios antes dos europeus colonizarem o Sul da Ásia, a região era composta por centenas de reinos ou repúblicas independentes. Uma destas repúblicas ficava no que hoje é fronteira entre Índia e Nepal.

O nome dessa república “Shakya”, é uma palavra sânscrita que significa “aquele que é capaz”. Cerca de 500 a.C. era governada por Sudodana, um rei considerado justo pela população. Sudodana era casado com a Rainha Maya, e o nascimento do primogénito do casal foi uma ocorrência cercada de auspícios.

Na noite da concepção ela sonhou que um elefante de seis presas entrou no seu ventre pelo lado direito do abdómen, e dez meses depois nasceu Sidarta. Como era costume naquela região, o filho deveria nascer na terra do avô materno, mas Maya deu à luz no meio do caminho, em Lumbini, e veio a falecer 7 dias depois.

Um eremita vidente chamado Asita, após analisar sinais no corpo do bebe, anunciou que seria um grande líder para os homens, fosse num aspecto mundano, na forma de um Rei como o pai desejava, ou num aspecto espiritual, como um guru que ensinaria moksha – libertação.

Sidarta cresceu na cidade de Kapilavastu, capital do Reino dos Shakyas, cidade que hoje não temos certeza se corresponde a Tilaurakot, no Nepal ou a Pibrahwa, na Índia. Ele recebeu toda a educação usual que um príncipe costumava receber, o que incluía o estudo dos textos clássicos e treinamento físico e no uso das armas como o arco-e-flecha, demonstrando excelência em todas as actividades.

Chegando a idade de 16 anos, Sidarta casou com a prima, Yasodara, além de manter milhares de outras esposas, como era costumeiro à elite naquele tempo e lugar. Com Yasodara teve um filho que foi chamado Rahula.

Porém a vida de luxo nos seus três palácios sazonais, com todas as facilidades e prazeres disponíveis para um príncipe numa região pacífica e próspera, não impediam que Sidarta sentisse certas inquietações. Seu pai, com medo que ele tornasse-se num religioso e abandonasse as responsabilidades quanto à herança de líder no reino dos Shakyas, o protegera de receber muitos ensinamentos religiosos, e em particular, de entrar em contacto com o sofrimento dos seres.

Mesmo levando uma vida tão resguardada na superficialidade dos divertimentos mundanos, ou talvez por isso mesmo, Sidarta desenvolveu uma grande sensibilidade, e até mesmo curiosidade, por aquilo de que era protegido. Consta que um dia viu flores murchas que algum criado havia se esquecido de trocar, e logo perguntou ao criado do que se tratava aquele fenómeno tão estranho. Após algumas questões, o criado foi obrigado a dizer que as coisas eram assim mesmo: as flores, como tudo mais, estão sujeitas à decadência.

Agora certo de que algo importante havia lhe sido ocultado, Sidarta pede ao pai para visitar a cidade – a sua primeira vez fora do palácio. O pai, preocupado, buscando criar uma ilusão de riqueza e glória contínua para o filho, coloca multidões de pessoas a trabalhar para esconder a pobreza e decadência do caminho por que Sidarta passaria.

Mesmo assim, este trabalho de ocultação do sofrimento, como tinha de ser, foi imperfeito. Sidarta acabou avistando quatro coisas que o deixaram muito inquieto: um velho, um doente, um cadáver e um mendicante religioso vestido com mantos.

Ao perguntar aos criados sobre aquelas coisas, ficou sabendo que velhice, doença e morte eram inescapáveis, e que ele, seu filho, sua mulher e todos que conhecia passariam por pelo menos uma dessas experiências, provavelmente as três. Mas o que significava o mendicante religioso? Ele, segundo os atendentes, era alguém que não estava satisfeito com essa situação, e que, portanto, buscava uma saída.

Sidarta ficou realmente impressionado, e a partir dessa experiência nada mais dentro do palácio era capaz de lhe dar contentamento. Logo começou a planear uma fuga para se tornar um religioso, e, como aquele homem santo, também buscar uma solução para tão evidente e grave problema – um problema perante o qual quase todos parecem estar cegos, ou, pior que isso, que deliberadamente preferem ignorar. Realizando os piores medos do pai, Sidarta estava decidido a encontrar uma solução. E não apenas em seu próprio nome, mas em nome de todos também sujeitos a essa terrível realidade de decadência inexorável.

As instruções religiosas que Sidarta encontrou ao sair do palácio o levaram a praticar ascetismo extremo por seis anos. Ele vivia ao relento, quase nu e a maior parte do tempo sentado imóvel – comendo uns poucos grãos por dia e bebendo gotas de orvalho. Essa disciplina buscava fazer cessar os impulsos do corpo, de forma que alguma verdade espiritual fosse revelada e concedesse liberdade perante o sofrimento vasto desse mundo transitório, que ao ser comparado com aquele mero incómodo físico, o reduz à irrelevância. No final desse período de mortificação do corpo, prestes a morrer de fome, ele ouviu a voz longínqua de um professor de música passando num barco, dizendo ao aluno que “para o instrumento tocar bem as cordas não podem estar muito apertadas – e nem muito frouxas”. Abandonando os exageros de seus colegas do ascetismo – e até mesmo sendo considerado um traidor –, ele decidiu alimentar-se, e logo se deparou com uma moça que lhe ofereceu uma tigela de arroz doce.

Após a refeição, ele sentou-se  sob uma árvore, e com a mente muito serena e lúcida, ele analisou o processo de causalidade. Examinou como um elemento está conectado com outro até a origem, que é uma espécie de cegueira perante as possibilidades – uma forma de encarar as coisas que nos impede de reconhecer o que realmente são – nos dificultando reconhecer todas as outras formas possíveis de encará-las. A partir dessa ignorância básica, passando por nove outros passos em que ela se arma e solidifica cada vez mais, chegamos ao momento da concepção, então nossa vida acontece e enfim sofremos e morremos.

Através de uma reflexão minuciosa sobre os 12 Elos da Originação Dependente, Sidarta reconheceu que o único modo de desfazer essa confusão era repousando na visão que havia sido ofuscada por essa ignorância básica. Ele então decidiu não levantar daquele lugar até obter esse reconhecimento.

Durante a madrugada Sidarta passou por todo tipo de experiências visionárias e tentações. De prazeres sensoriais e medo profundo a estados meditativos enganadores, e até a reificação da megalomania na forma de alguém que achou que atingiu alguma coisa especial. Sidarta permaneceu imóvel e não cedeu a nenhum impulso de desistência, auto-glorificação ou ressentimento.

No amanhecer daquele mesmo dia, quando a última estrela ainda brilhava no céu, príncipe Sidarta acordou para a realidade além de nascimento, doença e morte. A partir desse momento, aos 35 anos de idade, ele foi chamado de Buda, isto é, “o desperto”. Ele então passou quatro semanas sob a árvore, simplesmente usufruindo o resultado de muitas vidas completamente focadas em esforços altruístas e aprendizado espiritual.

Mas ainda faltava um detalhe. Buda teve uma pequena dúvida quanto a possibilidade de ensinar algo assim aos outros. Foi aí que o poderoso Deus Brahma (um dos deuses que mantém a crença de ser o criador desse mundo), veio em pessoa pedir ao Buda que ensinasse aos seres o que descobriu, porque, segundo ele, há muitos que possuem apenas uma leve camada de poeira sobre os olhos, e facilmente podem ser levados a reconhecer o que está além de vida e morte.

Buda então reencontrou os cinco ascetas que o haviam abandonado. Reconhecendo prontamente a realização que desabrochara naqueles últimos dias, eles voltaram atrás em seu julgamento, e assim Buda lhes concedeu o primeiro ensinamento, as Quatro Nobres Verdades.

Segundo esse ensinamento, tudo que é composto é insatisfatório (a 1ª NV) – mas a causa da insatisfatoriedade não está propriamente nas coisas, mas em não reconhecer sua natureza (composta, insatisfatória, impermanente) e buscar satisfação através delas (a 2ª NV). Quando paramos de depositar confiança nas coisas compostas, de dar a elas o poder – que elas não tem – de produzir nossa felicidade, atingimos uma grande liberdade (a 3ª NV).

Para efectivar o reconhecimento das três outras verdades, a quarta nobre verdade provê um Caminho de Oito Passos. Ele inclui desenvolver uma perspectiva autêntica perante a vida e se comprometer com o caminho espiritual que leva ao estado desperto de um Buda (1), praticar a ética de forma autêntica em corpo (2), fala (3) e mente (4), viver e ganhar a vida de forma honesta e autêntica (5), praticar meditação de forma também autêntica, até desenvolver uma estabilidade lúcida e calma (6), examinar de forma igualmente autêntica as coisas com base nessa estabilidade refinada (7), e enfim repousar de forma não menos autêntica no resultado que é o estado desperto (8).

Após esse primeiro ensinamento, o Buda ensinou incansavelmente, mendigando alimento e caminhando por todo subcontinente indiano, por 45 anos. Ele fundou a comunidade monástica, que se reunia todo ano por três meses, durante a estação das chuvas, para receber ensinamentos e fazer práticas em grupo. Após esse período os monges se dispersavam e ensinavam o que haviam aprendido por onde passavam, onde quer que fossem requisitados.

Aos oitenta anos de idade Buda recebeu algum alimento estragado como oferenda, e para mais uma vez ensinar sobre a impermanência, manifestou uma morte bem humana, causada por disenteria.

 

A PRESERVAÇÃO DO ENSINAMENTO

Após a morte do Buda, a comunidade monástica se reuniu em quatro grandes concílios, que decidiram o futuro do budismo.

O primeiro concílio ocorreu um ano depois da morte do Buda. Após um monge em particular ansiar pelo relaxamento de regras monásticas, já que o sábio não estava mais presente, outros monges decidiram que seria necessário planear a preservação cuidadosa dos ensinamentos. Até os dias de hoje, embora seja bastante claro que o Vinaya (conjunto de regras monásticas) foi estabelecido pelo Buda circunstancialmente, de acordo com costumes locais e ocorrências particulares – e o próprio Buda ter dito ser necessário adaptar o Vinaya as circunstâncias de tempo e local – para eliminar regras (apenas as menores são passíveis de revogação) é necessário unanimidade na comunidade monástica, algo que nunca foi atingido.

Aproximadamente 100 anos depois, os monges se reuniram novamente. Desta vez,  possivelmente também por questões ligadas ao Vinaya, houve uma diferença irreconciliável, e dois grupos se formaram. Segundo as fontes primárias mais antigas, a maioria (que doravante foram conhecidos como Mahasamghika) se recusou a aceitar certas regras adicionadas pelo grupo minoritário (Sthavira). Segundo a tradição Theravada, que ainda existe, e é uma derivada de escolas que derivaram do ramo dos Sthaviras, este concílio foi necessário por que certos monges se recusaram a obedecer a uma lista de 10 preceitos controversos. Alguns deles eram aparentemente inócuos, como não armazenar sal num chifre, ou não beber iogurte após o almoço – mas pelo menos um era bastante importante, “não usar ouro ou prata”, o que é interpretado como não receber oferendas em espécie ou mesmo tocar ou lidar com dinheiro.

250 anos a. C., um terceiro concílio foi realizado. O budismo havia encontrado um patrono excelente na forma de Rei Ashoka, mas todo aquele dinheiro e poder temporal aparentemente começaram a corromper a comunidade, que começou a se preocupar com professores falsos e doutrinas heréticas. Enquanto os dois outros concílios se focaram em regras próprias da comunidade monástica, neste concílio pela primeira vez se reconhece que é preciso chegar a um consenso quanto aos ensinamentos do Buda de forma geral. Era preciso determinar a intenção por trás de suas palavras, e estudar como evitar que a doutrina se corrompa com a distorção terminológica ou a adição de ideias espúrias – mesmo porque enquanto o budismo se espalha, começa a ser necessário traduzir as ideias de uma cultura para a outra. Uma determinação importante desse concílio foi enviar monges missionários para várias regiões, algo que teve muito sucesso em vários reinos na chamada “Rota da Seda” e que na época tinham boa parte de suas regiões controladas por gregos (no Afeganistão, por exemplo) – mas monges foram enviados até Atenas. É com a influência helénica, que de fato começa a representação da figura do Buda na arte budista, melhor representada pelo estatuário descoberto em escavações arqueológicas na cidade de Gandhara.

Não há um quarto concílio, mas dois. Um deles ocorre no Sri Lanka, e outro em Kashmir – representando uma divisão que os eruditos costumam fazer entre budismo do “norte” e do “sul”. Esta divisão, ao longo dos séculos, redundou, grosseiramente falando, na separação entre Theravada e Mahayana (ainda que nessa altura, no primeiro século d. C., não se pudesse usar o segundo termo).

O concílio do Sri Lanka decide pela primeira vez registar todos os ensinamentos do Buda em papel, já que os monges estavam encontrando dificuldade de memorizá-los (a quantidade de palavras seria maior do que uma dúzia de Bíblias católicas).

Embora existam alguns registos budistas mais antigos, eles não são tão sistemáticos, e nem um pouco tão completos quanto os que a tradição Theravada começa a empreender já nesse concílio. E por isso a tradição Theravada hoje detém o cânone budista mais reverenciado por todas as tradições budistas e pelos historiadores. Ainda que as fontes primárias mais antigas desse cânone restantes hoje nos remetam a quase mil anos depois das determinações do quarto concílio, a preservação sistemática empreendida pelo Theravada, e a precisão histórica dos relatos, levam todos a crer que os ensinamentos ali preservados são os mais próximos do que o Buda ensinou – mesmo em termos da língua, o Páli, que é um dialecto razoavelmente próximo do que historicamente se acredita o Buda falava.

A tradição Theravada seguiu promovendo concílios próprios, e pelas bênçãos do Buda existe intacta e gloriosa até os dias de hoje – podemos encontrar monges em países no sul da Ásia que não aceitam dinheiro como oferenda, e que vivem de uma forma muito semelhante – senão virtualmente igual – a que o Buda vivia com seus alunos, 2600 anos atrás.

 

A COMUNIDADE DE NOBRES AMIGOS ESPIRITUAIS

Mas enquanto a história do “budismo do sul” viva quase 2000 anos sem grandes contratempos, a história do “budismo do norte” acaba sendo uma tapeçaria vasta de adaptação e sincretismo com as várias culturas da Ásia.

Em certo sentido podemos encarar essas disputas nos concílios e cisões na comunidade como encaramos as disputas entre as seitas de religiões monoteístas. Acaba parecendo uma disputa em torno da determinação da “verdade”, ou do que é mais genuíno e puro, em torno do que o fundador de uma tradição teria expresso.

Porém, no budismo a problemática é, em certo sentido, bem menor. Todas as formas de budismo concordam que o Buda falava de forma “expediente” – isto é, ele não impunha ao interlocutor uma visão particular, mas colocava-se na posição de falar aquilo que seria mais benéfico numa dada circunstância. Em outras palavras, o que o Buda ensinava era ensinado em reacção às questões trazidas pelas pessoas, e ao que elas eram capazes de aprender, sem tentar impor uma “fórmula” ou explicação da realidade supostamente baseada no resultado que ele obteve.

Assim, em alguns casos o Buda falava na existência de um “eu”. E, embora o budismo seja conhecido como uma tradição que nega a existência do eu, de fato existe uma escola budista (a Pudgalavada), que aceita a existência do “eu”. Porém, em muitas outras instâncias o Buda claramente negava qualquer base para a existência de um eu. Teria o Buda entrado em contradição? Como a Pudgalavada pode ser considerada uma tradição budista autêntica, mesmo tendo um ponto doutrinário central em tão directa contradição com absolutamente todas as outras tradições budistas?

Sua Santidade o Dalai Lama diz que, embora o budismo refute através da inferência lógica a existência de um criador, se há, em algum lugar, uma senhora idosa que pratica a virtude porque acredita em Deus, talvez seja melhor não ensiná-la como refutar a ideia de um criador.  Se lhe retiramos sua ideia de criador, sua prática de moralidade pode ficar afectada, sem muito ganho – nesse caso seria uma desvirtude explicar a essa senhora por que um criador é impossível. Caso a pessoa manifeste interesse em aprender uma coisa desse tipo, então pode ser bom ensinar. De outra forma, talvez o melhor seja não agitar os ânimos.

Dessa forma, quando algumas vezes “especialistas” em budismo encontram professores contemporâneos falando em Deus, “eu supremo” ou noções de alma, eles podem ficar desconfiados da qualificação do mestre. Porém é bem possível que ele esteja apenas usando os mesmos “expedientes” que o Buda ensinava para ensinar – isto é, falar de acordo com a expectativa, a capacidade e a necessidade do interlocutor.

No segundo século d. C. o “budismo do norte” produz o primeiro de uma grande lista de professores em várias culturas e países, que, pela vastidão e impacto dos ensinamentos – no contexto dos ensinamentos de Buda e com amplo e restrito respeito pelo sábio do Clã dos Sakias –, seria comparado com ele próprio. O “Segundo Buda” é um título que recai primeiro sob Nagarjuna – mas depois vai recair sobre Guru Rinpoche no Tibete, sobre Bodidarma na China, e sobre Dogen e Nichiren no Japão.

Porém Nagarjuna é o único dessa lista que é amplamente respeitado por todas as formas de budismo existentes hoje. Embora ele seja o maior luminar do Mahayana, o Theravada também o reconhece como grande professor.

Para Nagarjuna, a realidade da inexistência do “eu”, ou inexistência de uma essência independente, vai de cada objeto apreensível por uma consciência até a base ou fonte das palavras do Buda. Ser um Buda, para Nagarjuna, não é ter chegado a uma conclusão dentro de si e então impor ideias aos outros – a realização do Buda não pode ser pregada, ou mesmo ensinada no sentido de alguém que passa uma receita de bolo para outra pessoa.

O que o Buda fazia, e que redundou nessa riqueza e diversidade de tradições, era reagir de acordo com as necessidades do interlocutor enquanto incessantemente seguia repousando na liberdade reconhecida naquela ocasião sob a árvore. Da combinação dessas duas dimensões acontece a reação em cadeia da liberação dos seres através dos ensinamentos. O que o Buda não faz é passar uma “mensagem” ou “verdade” interna que ele detém e que então supostamente passaríamos a deter através do entendimento dos sentidos dos termos expressos. Não é uma revelação, ou algo que alguém pode encontrar e então estampar a ferro na mente da outra pessoa.

O contraponto de Nagarjuna foi Asanga – que não frisava tanto o aspecto de ausência de uma violência interna (de impor visões, de manter uma noção de “eu”) e a visão de liberdade radical que isso acarreta. Asanga enfatizava a presença calorosa do Buda – o fato de que ele só consegue falar conosco em sua esquisita língua de Buda porque já temos “outro” Buda potencial presente dentro de nós. Os ensinamentos operam por ressonância com o que temos em comum. Sem isso, como seria possível entender o Buda? Aqueles que enfatizaram o ensinamento de Nagarjuna foram chamados de Madhyamikas (seguidores do Caminho do Meio), e os que enfatizaram Asanga foram chamados de Yogachara (praticantes de yoga, ou meditação).

O que acabou acontecendo no quarto concílio em sua segunda versão, em Kashmir, foi o começo de uma longa doxografia de escolas – isto é, uma compilação e comparação de visões diferentes sobre o budismo – reconhecendo sempre alguma riqueza em cada uma, e os potenciais defeitos. Este rosário de visões é a base do Mahayana, o “grande veículo” – que é chamado de grande porque frisa a compaixão, mas que também é grande porque comporta miríades de visões sobre o budismo.

E não só de visões budistas: na medida em que o budismo dialogou com as outras tradições indianas, ele se sofisticou. E também se sofisticaram as escolas (particularmente as hindus) com que debateu. E os budistas, especialmente os do norte, sempre foram considerados a tradição mais aberta ao diálogo – tanto que fundaram, no séc. V, a primeira universidade do mundo – que chegou a comportar, segundo relatos, 10 mil alunos e 2 mil professores. É considerada uma universidade por que não só várias disciplinas budistas e técnicas eram ensinadas, mas professores não budistas eram convidados a vir e debater com os alunos.

Além disso, o budismo começou a se adaptar para outras realidades e circunstâncias que nem sempre eram abertas ao monasticismo – e várias modalidades de instituições sociais, e formas de prática peculiares surgiram no encontro com mudanças culturais. A comunidade laica sempre teve um papel importante no budismo, principalmente como sustentadora da comunidade monástica – mas com o passar do tempo surgem muitos grandes praticantes e professores bastante respeitados que não necessariamente assumem a disciplina monástica.

As tradições de Asanga e Nagarjuna – e boas misturas delas – foram exportadas antes do ano 1000 para vários países, inclusive Tibete, China, Japão, Coréia e Mongólia – onde vastas quantidades de textos foram traduzidas em esforços coletivos que duraram séculos, e que sofisticaram a técnica de tradução, sem falar nas técnicas de reprodução de texto. O mais antigo livro impresso existente hoje é uma cópia do Sutra Lapidador de Diamantes em Chinês, do ano 868, cerca de 600 anos antes da Bíblia de Gutemberg ser impressa.

Ao mesmo tempo, o budismo tão diverso da Índia clássica era destruído por invasões muçulmanas, só retornando à Índia com o colonialismo Britânico, no séc. XVIII.

Seria possível encher tomos apenas com os nomes de grandes professores e seres realizados, só considerando países onde o budismo era central, tais como o Tibete ou o Japão, e os últimos 1000 anos. Que dirá então contar suas histórias e descrever seus contextos sociais… E agora o budismo aos poucos vem chegando no ocidente: dos primeiros contactos com os gregos, até um período de 1500 anos em que nos ignoramos mutuamente, chegamos ao presente momento de globalização da cultura.

A tradução de textos-raiz para línguas ocidentais vai ser completada provavelmente neste século, já temos ótimos professores ocidentais, e aos poucos vemos praticantes sérios brotando aqui e ali. Nessa adaptação há grandes desafios, e, claro, grandes oportunidades.

Formas de budismo que na Ásia não se encontraram por mais de mil anos, agora são vizinhas numa mesma cidade na América do Sul – práticas são redescobertas, ênfases mudam – preconceitos são descobertos, e, algumas vezes, superados. São novos ares para uma tradição que está em constante renascimento, sempre tomando o cuidado de não cair em distorções e manter algo da pureza inefável da experiência de Sidarta sob aquela árvore.

Algumas pessoas dizem que o budismo não é uma religião, que é uma filosofia, ou até uma ciência. Mas o budismo é possivelmente, mais do que tudo, uma força civilizatória. Considerando os desafios ambientais que o mundo vive hoje, e cuja fonte real está na barbárie de mentes aleatórias que buscam satisfação em coisas externas – pode muito bem ser que a reverberação de um plácido sussurro de estado desperto seja o perfeito remédio para curar o mundo de suas mazelas.

O Que Te Faz Ser Budista ? |Dzongsar Khyentse Rinpoche

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Agora que o budismo está florescendo no Ocidente, ouço falar de pessoas que estão alterando os ensinamentos budistas para enquadrá-las na forma de pensar dos tempos modernos. Se há algo a ser adaptado, são os rituais e símbolos, não a verdade em si. O próprio Buda afirmou que a sua disciplina e métodos deveriam ser adaptados, de modo apropriado, a diferentes épocas e lugares. Mas as quatro verdades não precisam ser actualizadas nem modificadas; de qualquer modo, seria impossível fazê-lo. Pode-se trocar a xícara, mas o chá permanece puro. Depois de sobreviver por 2.500 anos e viajar 12.430.059 metros desde a árvore bodhi, na Índia central, até Times Square, em Nova York, o conceito “todas as coisas compostas são impermanentes” continua a aplicar-se. A impermanência continua a ser impermanência na Times Square. Não há como torcer essas quatro regras; não há excepções sociais ou culturais.

Diferentemente de algumas religiões, o budismo não é um kit de sobrevivência para a vida, que dita quantos maridos uma mulher deve ter, onde pagar impostos ou como punir os ladrões. Na verdade, os budistas a rigor, não têm um ritual para cerimónia do casamento. O propósito do ensinamento de Sidarta não foi dizer às pessoas aquilo que elas queriam ouvir. Ele ensinou movido pelo forte impulso de libertá-las das suas concepções equivocadas e da sua infindável falta de compreensão da verdade. Entretanto, para explicar essas verdades de modo eficaz, Sidarta ensinou por diferentes modos e meios, de acordo com a necessidade de suas diferentes plateias. Essas diferentes formas de ensinamento são hoje rotuladas como as diferentes “escolas” do budismo. A visão fundamental de todas as escolas, porém, é a mesma.

O grande Nagarjuna escreveu que o Senhor Buda não afirmou que após abandonar o samsara existe o nirvana. A não existência do Samsara é o nirvana. Uma faca é afiada num processo em que duas coisas se chocam: a pedra de amolar e o metal. Do mesmo modo, a iluminação é resultado da exaustão dos obscurecimentos e da exaustão dos antídotos dos obscurecimentos. Ao final, o caminho da Iluminação terá de ser abandonado. Se você ainda se define como budista, ainda não é um Buda.

Dzongsar Jamyang Khyentse — Excerto do livro  “O Que Te Faz Ser Budista?”

O Budismo na era da Internet | Vincent Horn

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O budismo na era da internet – Vincent Horn

Conforme mergulhamos cada vez mais fundo na era da internet, é natural que venha à tona a questão de como a inovação tecnológica está transformando a compreensão e a prática do budismo.

Nenhum de nós está isento do desafio de sustentar a presença num meio a um ambiente digital sempre ligado. Cada um deve descobrir como viver no meio de um conjunto de e-mails, posts em redes sociais, artigos de jornais e outras informações – além de tentar extrair algum sentido coerente disso tudo.

No meio de um tal influxo de estímulos, é provável que uma pergunta surja na mente dos actuais praticantes do darma: como as práticas de atenção plena, bondade amorosa e concentração se relacionam a essa era de internet hiper-rápida? Os tempos actuais estão tornando mais fácil ou mais difícil realizar as verdades do darma aqui e agora? Tendo explorado a convergência entre budismo, tecnologia e cultura ao longo dos últimos oito anos, através de um projecto chamado Buddhist Geeks, eu pude observar o surgimento de três tendências que podem moldar de forma radical o futuro direccionamento do budismo na era da internet.

1. A sanga na nuvem

A primeira tendência é algo com que muitos de nós já estamos acostumados, pois começou com o rápido crescimento da internet em meados dos anos 90 e prosseguiu irrefreável desde então. É a forma como as sangas budistas estão chegando no mundo virtual.

Tudo teve início há umas duas décadas, com os praticantes conectando-se através de fóruns de mensagens. Isso evoluiu, durante os anos 2000, para as mídias digitais (blogs, livros e podcasts). Nos últimos anos, os softwares de vídeo online têm tornado cada vez mais viável a interacção interpessoal em tempo real – o que gerou uma comunidade crescente de praticantes que se conectam online e que possivelmente conseguem todo o suporte para suas práticas através de sangas nas nuvens. (O Buddhist Geeks Dojo é a nossa própria tentativa de criar uma sanga na nuvem.)

Nos próximos anos, esteja atento à continuação dessa tendência. O modelo de comunidade geocêntrica (a noção de que as pessoas se reúnem para praticar principalmente no espaço físico) deve declinar, embora provavelmente não vá desaparecer. Ainda é difícil de imaginar, mas as tecnologias de realidade virtual e realidade aumentada estão prestes a criar um nível de imersão que será praticamente indistinguível das interacções “em pessoa”. Sangas inteiras vão migrar para o mundo online, e muitas outras já começarão lá. Os benefícios dessas comunidades incluem: a capacidade de se organizar em torno de ideias e pessoas ao invés de localizações geográficas; a possibilidade de participar de grupos genuinamente internacionais, influenciados por uma variedade de perspectivas que anteriormente só era encontrada em grandes metrópoles; e a diminuição do preço de participação, tendo em vista que a manutenção de um espaço virtual possui um custo fixo muito menor do que a de um espaço físico.

2. O budismo, desmembrado

A segunda tendência tem a ver com algo que já se pode notar: o budismo está sendo desmembrado. Esse desmembramento começou com a meditação sendo extraída do sistema tradicional dos três treinamentos (ética, meditação e sabedoria). Isso ocorreu na Birmânia moderna com a tradição Mahasi Sayadaw (vide o livro recente de Erik Braun, The Birth of Insight), e também com o ênfase das tradições Ch’an e Zen no papel central da meditação. Tais mudanças prepararam o terreno para o extremamente popular movimento da atenção plena – e para o subsequente desmembramento, dessa mesma atenção plena, da meditação budista (onde ela era apenas uma das dimensões do treinamento meditativo).

Tal desmembramento abriu portas a todos os tipos de possibilidades – inclusive permitindo que essas técnicas de treinamento mental, tipicamente religiosas, adentrassem vários aspectos da cultura secular e se recombinassem com novas disciplinas, criando abordagens meditativas híbridas (como a terapia cognitiva através da atenção plena, dentro da psicoterapia contemporânea). Isso também ocasionou muitas críticas receosas da possibilidade de ferramentas como a atenção plena perderem seu potencial liberativo ou serem subsumidas pelos aspectos mais negativos da cultura capitalista.

Nos próximos anos, fique de olho no desmembramento de outros elementos do budismo – como a compaixão, a concentração e até a percepção meditativa.

3. Tecnologias contemplativas

A última dessas tendências relacionadas à convergência do budismo e da era da internet é o desenvolvimento de toda uma série de novas tecnologias contemplativas­ – aquilo que poderíamos chamar de tecnodélicos. Essas tecnologias ainda se encontram em um estágio inicial de desenvolvimento e, por enquanto, não impressionam muito quando comparadas com a prática das técnicas tradicionais durante longos períodos de tempo. Os tecnodélicos incluem coisas como aplicativos de meditação, aparelhos de eletroencefalografia (como os que já deve ter visto, em experimentos de neurocientistas ocidentais, ligados ao couro cabeludo de monges tibetanos) e sensores físicos mensurando diferentes aspectos da nossa biologia (como respiração, batimentos cardíacos e quantidade de suor na pele).

Conforme o campo da ciência contemplativa continua a se desenvolver, e nosso maior entendimento da biologia da contemplação encontra aparelhos de última geração – ferramentas como capacetes de realidade virtual, computadores “vestíveis”, máquinas de eletroencefalografia cada vez mais potentes e mecanismos de estimulação cerebral directa – prepare-se para acompanhar o surgimento de tecnologias que podem de fato melhorar nossa habilidade de meditar. Nesse campo, enormes possibilidades são prenunciadas por diversos protótipos incipientes e até mesmo produtos finalizados – inclusive um aplicativo chamado “Calm” que utiliza neurofeedback na forma de imagens e sons específicos para te ajudar a alcançar um estado, programado no aplicativo, correspondente a uma experiência de calma.

Na busca por ainda mais calma digital, Judson Brewer, pesquisador da Universidade de Yale, está trabalhando num dos Projectos de eletroencefalografia mais excitantes da actualidade: a criação de um aplicativo que fornece feedback, em tempo real, dos níveis de actividade da área do cérebro onde fica o córtex cingulado posterior. Eu falei recentemente com um praticante avançado de meditação que testou algumas versões do aplicativo de Brewer, e ele estava impressionado com o facto de que o feedback que havia obtido em sua última sessão se referia claramente a uma experiência de percepção não-dual.

O professor de meditação Shinzen Young se permitiu alguns devaneios sobre a perspectiva de uma tecnologia chamada estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC) – uma forma de neuromodulação que pode activar e desativar partes específicas do cérebro através de uma suave corrente eléctrica.

As nossas formas sistemáticas para levar as pessoas ao estágio de “conquistar o rio” [sotapanna] podem ser genericamente descritas como sistemas binários. Nós damos às pessoas certas ideias (darshana) e certas práticas (sadhana). Eu vislumbro a possibilidade de que no futuro possamos adicionar um terceiro componente: aceleradores tecnológicos/científicos (upaya moderno).

Sei que isso pode soar como ficção científica (eu também achava isso há alguns anos!), mas suspeito que essas tecnologias contemplativas podem instaurar uma nova era de interesse em assuntos da consciência – muito maior do que o Movimento do Potencial Humano dos anos 60 e 70.

A oportunidade que vejo para o budismo é a de oferecer um contexto de profundo sentido, práticas comprovadas para lidar com as dificuldades, comunidades de aprendizado íntimo que podem apoiar a utilização sensata dessas tecnologias, e um lugar para continuar a exploração do que significa a iluminação nesse tempo e espaço. Não há quase dúvida de que essas formas do budismo na era da internet irão parecer radicalmente diferente das actuais. Mas eu acredito que o foco vai continuar a ser o mesmo: a diminuição do sofrimento humano e o despertar dos aspectos mais profundos de nossos corações e mentes.

A Ciência e o Budismo concordam: Não existe nenhum “você” aí dentro.

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Evan Thompson, da Universidade de British Columbia, no Canadá, decidiu verificar a crença budista da “anatta”, ou “não eu”. A neuro-ciência tem se interessado pelo budismo desde o final dos anos 1980, quando o Instituto Mente e Vida foi criado pelo Dalai Lama e uma equipe de cientistas. O conhecimento proveniente desses primeiros estudos validou o que os monges já sabiam há anos – se treinar a sua mente, pode mudar o seu cérebro.

A anatta é um conceito um pouco confuso, centrado na ideia de que não há um você consistente. A crença de que somos os mesmos de um momento para o outro, ou de um ano para o outro, é uma ilusão. “O cérebro e o corpo estão constantemente em fluxo. Não há nada que corresponda ao sentido de que há um eu imutável”, afirma Thompson.

 Um artigo publicado em Julho na revista “Trends in Cognitive Sciences” liga a crença budista de que o nosso eu está sempre mudando a áreas físicas do cérebro. Há evidências de que o “auto-processamento no cérebro não é instanciado em uma determinada região ou rede, mas se estende a uma ampla gama de flutuação de processos neurais que não parecem ser auto-específicos”, escrevem os autores.

Thompson, cujo trabalho inclui estudos de ciência cognitiva, fenomenologia e filosofia budista, diz que esta não é a única área em que a neuro-ciência e o budismo convergem. Porém, nem a neuro-ciência nem o budismo têm uma resposta definitiva sobre exactamente como a consciência se relaciona com o cérebro. E os dois campos divergem sobre certos aspectos do tema. Os budistas acreditam que há alguma forma de consciência que não é dependente do corpo físico, enquanto os neurocientistas (e Thompson), discordam.

O investigador, no entanto, apoia a opinião dos budistas de que o “eu” de facto existe. “Na neuro-ciência, muitas vezes se depara com pessoas que dizem que o eu é uma ilusão criada pelo cérebro. A minha opinião é que o cérebro e o corpo trabalham em conjunto no contexto de nosso ambiente físico para criar um senso do eu. E é equivocado dizer que só porque é uma construção, é uma ilusão”, afirma.

Mais desapego e Liberdade

É útil assistir a um vídeo de si mesmo do passado, ou ler algo que escreveu anos atrás. Os seus interesses, perspectivas, crenças, ligações, relacionamentos, todos mudaram de alguma forma. Anatta não significa que não existe nenhum você, mas significa apenas que está em constante mudança e evolução. Por que isso é importante?

Rick Hanson, autor dos livros “Hardwiring Happiness” e “Buddha’s Brain”, argumenta que, quando não há um eu consistente, significa que não temos de levar tudo para o lado pessoal. Isto é, os nossos pensamentos internos são apenas pensamentos e não nos definem. Os eventos externos são apenas os eventos externos e não estão acontecendo connosco pessoalmente. Ou, como diz a professora de budismo e meditação Tara Brach no seu blogue pessoal, os nossos pensamentos são “reais, mas não são verdadeiros”.

Há uma tremenda libertação em não nos identificarmos com uma ideia estabelecida de quem nós somos. É assim que podemos crescer e mudar, com a ajuda da neuroplasticidade – a capacidade do sistema nervoso de mudar, adaptar-se e moldar-se a nível estrutural e funcional ao longo do desenvolvimento neuronal e quando sujeito a novas experiências. Assim também há esperança de que possamos superar os nossos vícios ou maus hábitos (de mente e corpo), porque se não estamos presos às crenças auto-limitantes inerentes a um eu consistente, podemos nos tornarmos quem nós queremos ser, no momento em que queremos.

Enquanto a ciência e o pensamento oriental continuam trocando figurinhas, pode haver mais estudos apoiando pensamentos de 2.600 anos de idade. Mas é preciso manter a cabeça aberta. Como bem lembrou Dalai Lama no livro “Buddhism and Science: Breaking New Ground”, “Suponha que algo está definitivamente comprovado através da investigação científica. Suponhamos que esse facto é incompatível com a teoria budista. Não há dúvida de que devemos aceitar o resultado da pesquisa científica”.

Ouvir uma postura pró-ciência de um líder religioso é um alívio para muitos. No final das contas, parece que o budismo e neuro-ciência têm objectivos semelhantes: descobrir o que é essa coisa que chamamos de mente e como podemos usá-la para nos tornarmos um pouco menos miseráveis e um pouco mais felizes.

“O Budismo ensinou-me que não controlamos o que acontece”

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O Actor Heitor Lourenço encontrou-se com o Dalai Lama, o pai espiritual dos budistas na Índia, no refúgio onde vive, impedido que está de ir ao Tibete. A conversa e a viagem mudaram a vida do ator.

Quando se encontrou pessoalmente com o Dalai Lama?

Foi em 1997, na sequência da primeira grande viagem da minha vida, que decidi fazer sozinho, à Índia. Na altura já andava muito interessado no budismo. Fui procurar o sítio onde vive o Dalai Lama na Índia desde que foi proibido de voltar ao Tibete e pedi ao seu encarregado dos Negócios Estrangeiros para ser recebido por ele. “Venha cá”, responderam. O encontro teve um grande impacto na minha vida. O Dalai Lama tem uma frase em que nos aconselha a nos comportarmos como um turista de passagem por este mundo e sentirmos que não estragámos o hotel [risos]. É assim que gosto de me sentir.

Antes desse encontro marcante, o que o levou ao Budismo?

Recordo-me de ter começado a interessar-me pela filosofia budista na década de 90. Quando estava no 2.º ano do curso de Psicologia da Universidade Clássica de Lisboa tive um balde de água fria: a Catarina, uma amiga madeirense, lindíssima, foi passar as férias da Páscoa à ilha e não voltou: morreu num acidente. Eu tinha apenas 20 anos, estava naquela fase da vida em que somos invencíveis e imortais. A morte dela foi um chão que me foi tirado. Eu era católico mas não encontrei no catolicismo as respostas para o que me inquietava: “O que é isto, a vida?”

E foi à procura dessas respostas no budismo?

Fui. Não foi como no filme Comer, Orar, Amar (2010), ou seja, não vi a luz ou tive uma grande revelação. Foi um processo muito solitário e doloroso.

Porque é que o Budismo não apoia o Amor Romântico? – Thich Nhat Hanh

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“Se o Budismo apoia o amor pela Mãe Natureza, por que ele também não apoia o amor romântico entre duas pessoas e as demonstrações de afecto entre duas pessoas?”

Confira no curto vídeo abaixo, a bela resposta do Thich Nhat Hanh sobre a pergunta acima e fala das quatro qualidades incomensuráveis.

“Romântico ou não romântico, isso não importa. O importante é se é amor genuíno ou não genuíno.”

[Ative a legenda clicando no quadradinho no canto inferior direito do vídeo]

Transcrição, Tradução e Legendas: Pedro Miotto, Marcos Bauch, Fabio Rodrigues, Fabio Valgas, Vitor Barreto, Gustavo Gitti e Luís Oliveira.

Posso comemorar o Natal sendo budista?

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Para um budista iniciante, as tradicionais de festas como o Natal podem trazer um pouco de confusão, tanto espiritualmente quanto emocionalmente. Posso celebrar o Natal, mesmo que eu seja um budista? Posso dar presentes de Natal ou enviar cartões de Natal? E o que eu faço quando for convidado para festas de Natal?

As respostas a perguntas como estas são, naturalmente, a preferência pessoal. Mas um pouco de informação pode fazer a transição para o budismo mais suave, especialmente quando se torna claro que o budismo pode coexistir pacificamente na vida de uma pessoa com outra religião. Congratulando-se com o budismo na sua vida não significa que é necessário renunciar a outras conexões religiosas, na verdade, o budismo pode ajudar a melhorar as ligações de uma com a outra.

Eu ainda devo celebrar o Natal?

Considerando as origens do Natal, enquanto muitos adoram o nascimento de Cristo no natal, o feriado originalmente era em homenagem ao solstício de inverno. A árvore de Natal, embora a verdadeira origem não seja precisamente conhecida, acredita-se ser de origem pagã, essencialmente “cristianizada” através da conversão de várias sociedades ao cristianismo.

Natal moderno, pelo menos nos EUA, é em grande parte comercial, com crianças gritando sobre brinquedos do ano e outros desejos, ou então chorando e jogando fora quando suas exigências não são cumpridas na manhã de Natal. O enorme grupo de vendas Black Friday entre outras, dizem às pessoas que é importante comprar, comprar, comprar, dar, dar, dar.

Enquanto alguns mantêm suas tradicionais práticas cristãs, para muitos não é só isso. Curiosamente, os japoneses são essencialmente budistas, xintoísta, e geralmente uma combinação dos dois, mas eles celebram o Natal na forma de pequena troca de presentes, festas modestas com parentes e amigos, bolo de natal, e uma refeição ao estilo ocidental.

Ensinamentos budistas na época do Natal

A decisão de celebrar o Natal se deve a cada indivíduo. Se desejar adicionar uma influência budista para as celebrações do feriado, talvez você possa incorporar lições budistas tiradas de histórias de Natal.

E talvez, se possível, tentar fazer com que o natal seja o menos materialista possível; no Budismo, apesar de tudo, ensina que devemos estar conscientes do que já possuímos, de forma que desejar algo que não podemos ter, só nos faz sofrer.

Fonte: Examiner

Não procure o Budismo

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Se quer milagres, não procure o budismo. O supremo milagre para o budismo é você lavar seu prato depois de comer.

Se quer curar o seu corpo físico, não procure o budismo. O budismo só cura os males de sua mente: ignorância, cólera e desejos desenfreados.

Se quiser arranjar emprego ou melhorar sua situação financeira, não procure o budismo. Irá decepcionar-se, pois ele vai-lhe falar sobre desapego em relação aos bens materiais. Não confunda, porém, desapego com renúncia.

Se quer poderes sobrenaturais, não procure o budismo. Para o budismo, o maior poder sobrenatural é o triunfo sobre o egoísmo.

Se quer triunfar sobre seus inimigos, não procure o budismo. Para o budismo, o único triunfo que conta é o do homem sobre si mesmo.

Se quer a vida eterna num paraíso de delícias, não procure o budismo, pois ele matará seu ego aqui e agora.

Se quer massajar o seu ego com poder, fama, elogios e outras vantagens, não procure o budismo. A casa de Buda não é a casa da inflação dos egos.

Se  quer a protecção divina, não procure o budismo. Ele lhe ensinará que você só pode contar consigo mesmo.

Se quer um caminho para Deus, não procure o budismo. Ele o lançará no vazio.

Se quer alguém que perdoe as suas falhas, deixando-o livre para errar de novo, não procure o budismo, pois ele lhe ensinará a implacável Lei de Causa e Efeito e a necessidade de uma autocrítica consciente e profunda.

Se quer respostas cómodas e fáceis para suas indagações existenciais, não procure o budismo. Ele aumentará as suas dúvidas.

Se quer uma crença cega, não procure o budismo. Ele ensinará a pensar com sua própria cabeça.

Se você é dos que acham que a verdade está nas escrituras, não procure o budismo. Ele lhe dirá que o papel é muito útil para limpar o lixo acumulado no intelecto.

Se quer saber a verdade sobre os discos voadores ou sobre a civilização de Atlântida, não procure o budismo. Ele só revelará a verdade sobre si mesmo.

Se quer se comunicar com espíritos, não procure o budismo. Ele só pode ensinar a comunicar com o seu verdadeiro eu.

Se quer conhecer as suas encarnações passadas, não procure o budismo. Ele só lhe poderá mostrar a sua miséria presente.

Se quer conhecer o futuro, não procure o budismo. Ele só vai-lhe mandar prestar atenção a seus pés, enquanto anda.

 

Monja Silva Gonçalves

A Visão Budista sobre Outras Religiões

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Pergunta: Como vê o budismo a existência de outras religiões?

Resposta: Já que nem todos têm as mesmas inclinações e interesses, Buda ensinou vários métodos para diferentes pessoas. Citando este exemplo, Sua Santidade o Dalai Lama disse que é maravilhoso que no mundo existam tantas religiões diferentes. Assim como uma comida não é atractiva para todos, também uma religião ou um grupo de crenças não irá satisfazer as necessidades de todos. Deste modo, é extremamente benéfico que uma variedade de diferentes religiões estejam disponíveis para serem escolhidas. Ele as acolhe e se alegra disso.

Nos dias de hoje, há um crescente diálogo, baseado no respeito mútuo, entre os mestres budistas e os líderes de outras religiões. Dalai Lama, por exemplo, encontra-se frequentemente com o Papa. Em Assis, na Itália, em Outubro de 1986, o Papa convidou os líderes de todas as religiões do mundo para uma grande assembleia. Nela estiveram presentes cerca de cento e cinquenta representantes. Dalai Lama estava sentado próximo do Papa e teve a honra de fazer o primeiro discurso. Na conferência, os líderes espirituais discutiram tópicos comuns a todas as religiões, tais como a moralidade, o amor e a compaixão. As pessoas ficaram muito encorajadas pela cooperação, harmonia e respeito mútuo que os vários líderes religiosos sentiam uns pelos outros.

Claro que existirão diferenças se discutirmos metafísica e teologia. Não há maneira de se escapar às diferenças. Contudo, isso não significa que tenhamos necessidade de fazer o debate com a atitude de que “o meu pai é mais forte que o seu pai”. Isso seria muito infantil. É mais benéfico olhar para os aspectos que existem em comum. Todas as religiões do mundo estão procurando melhorar a situação da humanidade e tornar a vida melhor, ensinando as pessoas a seguirem um comportamento ético. Todas elas nos ensinam a não ficarmos totalmente presos pelo lado material da vida, mas pelo menos mantermos um equilíbrio entre a procura do progresso material e do progresso espiritual.

Seria muito benéfico se todas as religiões trabalhassem em conjunto para melhorarem a situação do mundo. Precisamos não apenas de progresso material, como também de progresso espiritual. Se apenas enfatizarmos o aspecto material da vida, então a construção de uma bomba mais poderosa para matar toda a gente seria um objetivo desejável. Se, por outro lado, pensarmos de uma maneira humanística ou espiritual, ficaremos conscientes do medo e de outros problemas que surgem da acumulação de armas de destruição maciça. Se apenas nos desenvolvermos espiritualmente e não tivermos em conta o lado material, então passaremos fome e isso também não será nada bom. Nós precisamos de um equilíbrio.

Um dos aspectos da interação entre as religiões mundiais é que elas estão compartilhando umas com as outras algumas das suas especialidades. Consideremos, por exemplo, a interação entre os budistas e os cristãos. Muitos cristãos contemplativos estão interessados em aprender os métodos de concentração e meditação budistas. Vários sacerdotes, abades, monges e freiras católicos têm ido a Dharamsala, na Índia, para aprenderem esses métodos, a fim de os levarem para as suas próprias tradições. Vários budistas ensinaram em seminários católicos. Eu também já fui ocasionalmente convidado para ali ensinar como meditar, como desenvolver a concentração e o amor. O cristianismo ensina-nos a amar a todos, mas não explica em pormenor como fazê-lo. O budismo é rico em métodos para desenvolver o amor. A religião cristã, nos seus níveis mais altos, está aberta a aprender estes métodos budistas. Isso não significa que os cristãos se vão todos tornar budistas – ninguém está convertendo ninguém. Esses métodos podem ser adaptados dentro das suas próprias religiões, para ajudá-los a serem melhores cristãos.

Da mesma forma, muitos budistas estão interessados em aprender serviços sociais com o cristianismo. Muitas tradições cristãs salientam que os seus monges e freiras se envolvem com o ensino, o trabalho hospitalar, o cuidado com idosos, orfãos e assim por diante. Apesar de alguns países budistas terem desenvolvido esses serviços sociais, nem todos contudo o fizeram por várias razões sociais e geográficas. Os budistas podem aprender o serviço social com os cristãos. Sua Santidade o Dalai Lama é muito aberto a isso. Isso não significa que os budistas se estejam tornando cristãos. Existem certos aspectos da experiência dos cristãos a partir dos quais os budistas podem aprender; existem também coisas da experiência dos budistas a partir das quais os cristãos podem aprender. Desta maneira, existe um fórum aberto entre as religiões do mundo, baseado no respeito mútuo.

Geralmente é ao nível mais alto das interacções entre religiões que as pessoas são abertas e sem preconceitos. É nos níveis mais baixos que as pessoas se tornam inseguras e desenvolvem uma mentalidade de time de futebol: “Este é o meu time de futebol e as outras religiões são times de futebol oponentes!” Com tal postura, nós competimos e lutamos. Isso é muito triste, quer ocorra entre as diferentes religiões ou entre as várias tradições budistas. Buda ensinou muitas variedades de métodos e todas elas funcionam harmoniosamente para ajudar uma vasta gama de diferentes tipos de pessoas. Assim, é importante respeitar todas as tradições, tanto dentro do budismo como entre as religiões do mundo.

Fonte: Berzin, Alexander e Chodron, Thubten. Glimpse of Reality.