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Vacuidade e Compaixão | Sogyal Rinpoche

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O Buda disse:

Saiba que todas as coisas são assim:
Uma miragem, um castelo de nuvens,
Um sonho, uma aparição,
Sem essência mas com qualidades que podem ser vistas.

Saiba que todas as coisas são assim:
Como a lua num céu brilhante
Em algum claro lago reflectida,
Ainda que para aquele lago a lua jamais se moveu.

Saiba que todas as coisas são assim:
Como um eco que provém
Da música, sons e lamentos,
Embora nesse eco não haja melodia.

Saiba que todas as coisas são assim:
Como um mágico que fabrica ilusões
De cavalos, bois, carroças e outras coisas,
Nada é como parece.

A contemplação dessa qualidade da realidade em que ela é similar ao sonho não precisa de modo algum nos deixar indiferentes, desesperançados ou amargurados. Ao contrário, ela pode revelar em nós um humor cálido, uma suave e forte compaixão que mal sabíamos que existia em nós, e uma generosidade cada vez maior para com todos os seres e coisas.

O grande santo tibetano Milarepa disse: “Ao ver a vacuidade, ter compaixão”. Quando através da contemplação vemos de facto a vacuidade e a interdependência de todas as coisas e de nós mesmos, o mundo se revela numa luz mais brilhante, fresca e viva, como a rede de jóias com infinitos reflexos de que falava o Buda.

Então, já não temos que nos proteger, nem precisamos fingir, e aos poucos se torna fácil fazer o que nos diz o conselho de um mestre tibetano [Chagdud Tulku Rinpoche]:

Reconheça sempre que a qualidade da vida é como a de um sonho e reduza o apego e a aversão. Pratique a boa vontade com todos os seres. Seja amoroso e compassivo, não importa o que os outros façam. O que eles farão não tem tanta importância quando vê tudo como um sonho. A arte é manter a intenção positiva durante o sonho. Esse é o ponto essencial. Essa é a verdadeira espiritualidade.

Sogyal Rinpoche  – “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer”

Sabedoria e Compaixão

Buddha

Sabedoria, que é chamada de a mãe dos budas, nada mais é do que a compreensão do vazio. Esse é o grande segredo do despertar. Todos os budas nascem dessa percepção, pois somente a sabedoria do vazio pode dar nascimento à iluminação. Sabedoria é a experiência directa, transformadora da realidade do vazio em nossas próprias vidas. É a certeza viva de que nada existe como uma entidade separada como normalmente acreditamos. […] vazio e sabedoria são vistos como o princípio feminino da iluminação, inseparavelmente unidos com o princípio masculino da compaixão e dos meios habilidosos, ou método.

Compaixão não é apenas um sentimento de piedade e empatia, mas uma força activa, uma energia fundamental que está incessantemente trabalhando para remover as causas do sofrimento. Não se pode evitar o seu aparecimento, porque na realização do vazio não existem fronteiras entre a própria pessoa e os outros. Compaixão é sensibilidade absoluta, amor imparcial e preocupação ilimitada por tudo na existência. É a expressão exterior natural da bem-aventura da iluminação. […] Meios habilidosos significam a aplicação da compaixão, a actividade iluminada que se esforça para remover o sofrimento e conduzir todos os seres conscientes em direcção à suprema felicidade.

Vazio e compaixão são completamente interligados. A relação entre eles tem sido comparada à de uma chama e sua luz, ou a de uma árvore e suas folhas. A actividade no mundo não é verdadeiramente iluminada a não ser que brote da percepção de que, no sentido absoluto, nada está sendo feito ou precisa ser feito. Ao mesmo tempo, o coração desperto sente como seu próprio o sofrimento de todos que ainda não despertaram. […]

Francesca Fremantle, em “Vazio Luminoso“

Compaixão | Dzogchen Ponlop Rinpoche

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“A compaixão não é um estado que criamos para realizar boas obras para beneficiar alguém. É parte de nossa natureza e, quando nos ligamos com ela, acabamos nos enriquecendo e nos beneficiando no mínimo tanto quanto a pessoa que é objecto de nossa simpatia e preocupação.

Quando estamos genuinamente engajados num processo de trabalhar com os outros, também estamos trabalhando com nós mesmos. Assim, todo e qualquer tempo que gastamos num processo desse tipo não é um desperdício, mesmo do ponto de vista da liberdade individual. Há um ditado budista que diz ‘ajudar os outros é a forma suprema de ajudar a si próprio’. Exactamente no momento em que estamos tentando aconselhar outra pessoa, dando o melhor de nós, realmente tentando ajudar, oferecendo o nosso melhor discernimento sobre os problemas dela, é nesse momento em que podemos ter uma súbita realização quanto a um problema de nós mesmos.

Geralmente, é durante os nossos esforços de ajudar os outros em suas confusões que vivenciamos alguma libertação de nossa própria confusão. Esse potencial para beneficio mútuo está sempre presente. Por essa razão, não devemos sustentar a visão de que somos inteligentes e de que a pobre pessoa confusa na nossa frente não sabe de nada. Ao mesmo tempo, não devemos esperar qualquer resultado ou recompensa. Em resumo, compaixão genuína é algo livre de manobras”.

Dzogchen Ponlop Rinpoche, no livro “Buda Rebelde

Respeito e Compaixão – Monja Coen

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Se ainda temos de apontar para alguns grupos que devem ser incluídos, é porque estamos distantes de um coração bondoso

Respeito e Compaixão pelos homossexuais. Respeito e Compaixão pelas mulheres. Respeito e Compaixão pelos idosos. Respeito e Compaixão pelas crianças.

Respeito e Compaixão pelos seres humanos.

Respeito e Compaixão pela vida na Terra.

Respeitar é mais do que tolerar.

Compaixão é identificação e cuidado terno.

Quando a minha mão esquerda se magoa, a minha mão direita imediatamente a vai socorrer. Sem esperar nada em troca.

Porque somos um só corpo e uma só vida.

Quando iremos todos despertar?

O vírus ebola nos assusta e atormenta.

Em Dallas, o apartamento da enfermeira que tratou o paciente com ebola e se contaminou foi totalmente higienizado.

Fiquei lembrando da hanseníase.

Havia no Japão uma ilha; chamava-se Ilha do Amor. Para lá eram levados os pacientes com hanseníase. Iam de barco. Não havia pontes, e na ilha não havia barcos. Sem retorno. As suas antigas casas e seus pertences eram queimados. Os seus nomes, apagados das famílias.

Na Europa mataram o cão de uma pessoa contaminada? O cão da enfermeira de Dallas está sob observação.

Precisamos salvar a Humanidade do vírus que nos pode destruir.

Surgiu em 1977 pela primeira vez.

Até hoje sem vacina?

Mas agora, que atinge os continentes privilegiados, a vacina surge para poucos.

Alguma coisa conhecida?

No surto da Sida, houve um governo que se colocou de frente contra grandes indústrias farmacêuticas, e os medicamentos são hoje gratuitos.

Farmácia popular — que bonito.

Mas ninguém sabe, ninguém viu.

O Sol põe-se dourado, mas nós não douramos as pílulas.

Ver a realidade assim como é. Sem manipular a mente de ninguém — nem mesmo a sua.

Sem ser manipulada por ninguém — a nossa mente sagrada.

Para isso é preciso despertar. Despertar é ver em profundidade. É compreender as manobras dos manobradores e se desenvencilhar da visão tacanha, corrupta. Corrupta de coração rompido, de se sentir separada do todo. Em quantas corrupções estiveste envolvido hoje?

Não falar dos erros e faltas alheios é um dos Preceitos de Buda. Uma sugestão para o Nirvana, a paz sábia.

Então, vamos falar do quê?

Será que estamos o tempo todo falando mal uns dos outros? Procurando os nossos eleitores? Gritando pelos nossos votos?

Direitos e deveres.

Dever de se perceber interligando de forma inseparável.

Dever de desenvolver a capacidade do respeito e da compaixão por todos os seres, por cada partícula, cada onda.

Se ainda temos de apontar para alguns grupos que devem ser respeitados e incluídos é porque estamos muito, muito distantes do coração bondoso, terno, acolhedor, humilde da compaixão ilimitada.

Nós, filhos e filhas da Terra e do Sol, habitantes da Via Láctea, podemos. Podemos e devemos apreciar a vida.

Estamos sempre chegando, chegando, partindo, indo, voltando e indo novamente.

Incessante movimento — que haja respeito e compaixão no movimento quieto do nada-tudo.

Somos o todo manifesto.

Trocando o “Eu” pelos Outros.

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Segundo o Budismo, para sermos felizes, temos de desenvolver um genuíno sentimento de amor pelos outros: temos de ser capazes de amá-los. Aquilo que faz com que tenhamos amor pelos outros vem dos deuses, e nos transforma em deuses. Este pensamento, este sentimento – o de amor pelos outros – é a porta que abre a prática Mahayana (*1).

Todo sofrimento que experimentamos tem uma causa: e esta causa reside no pensamento egoísta, no pensamento de se preservar a si mesmo, de só pensar em si mesmo, de tirar vantagem para si, proveito para si mesmo em tudo e com tudo. Ou seja, só pensar em si mesmo, o tempo todo. O nosso real inimigo é esse tipo de carinho por si mesmo, de cuidado de si, de auto-compaixão. Ou seja, o pensamento que diz sempre: “eu podia ter conseguido isso para mim”, “isso me aconteceu”, “fizeram isso comigo”, “o que há de errado comigo?”, “por que isso só acontece comigo?” Esse é o tipo de pensamento que gera a infelicidade: o de pensar em si mesmo.

Devemos desprezar o pensamento que pensa em si mesmo, abandonar esse tipo de pensamento, desprezar a ideia de cuidar de si e nos dedicar inteiramente em pensar nos outros.

Não se trata de desprezar-nos a si mesmo, julgando-nos inferior: muito ao contrario, devemos desenvolver uma imensa autoconfiança na nossa capacidade de ir em socorro dos outros, de ser deles a salvação e o amparo.

Temos de realizar um treino constante para reverter a nossa tendência actual e dedicarmo-nos a pensar exclusivamente nos outros, esquecendo-nos de nós mesmos. Podemos começar pelas pequenas coisas, como anular as nossas reacções de resposta às agressividades do outro para connosco, quando o outro se encontra sob o poder dominador das aflições mentais. Em vez de reagir, em vez de gerar ódio e negatividade, quando atacados, devemos tentar anular-nos como pessoas, tornar-nos “vazios”, como sujeito zero, de tal forma que não haverá “alguém” ali para ser ofendido ou atacado, ou não haverá ninguém.

Isto a princípio parecerá muito difícil, como tudo que a princípio aprendemos, mas depois poderá nos parecer familiar. Podemos até sentir ódio, mas não demonstramos, mas anulamos imediatamente este ódio-resposta, de forma que aos pouco vamo-nos tornando mestres de nós mesmos e das nossas reacções. Todos os nossos problemas derivam de nós nos prezarmos demais, de pensarmos muito em nós mesmos, de estimarmo-nos demais a nós mesmos. Alimentamos este pensamento há muito tempo, há muitas vidas, que é o pensamento instintivo de preservação.

Todos os Budas praticaram este treinamento de trocar o si-próprio pelos outros. Todos os Bodisatvas (*2) também realizaram isso. Eles continuam fazem isto: o cuidado para com os outros. Incontáveis vidas o Bodisatva praticou assim, antes de se tornar um Budha. E é muito importante ver e entusiasmar-se com os exemplos dos grandes Mestres que praticaram antes de nós: ou seja, não se importar com o que acontece ou acontecerá connosco mesmos, e sim com os demais. Não se dar muito valor… e ao mesmo tempo se considerar com a responsabilidade universal de assegurar o bem-estar do mundo. Este pensamento nos transforma num Deus, nos transformará num Buda.

Só depois de aumentarmos e fortalecermos o pensamento de preocupação com os outros e despreocupação connosco mesmo é que começamos a trocarmo-nos pelos outros. Por exemplo, se dermos toda a nossa comida para os outros, sem nos importarmos connosco mesmo. Devemos começar pelas coisas mais simples, como ceder a vez numa fila, ou dar o seu lugar no autocarro. Devemos aprender a dedicarmo-nos aos outros nos mínimos gestos, por exemplo, distribuindo sorriso e afecto genuíno. Mesmos os animais sentem quando nos aproximamos deles com afecto, com amor, com alegria de vê-lo, de encontrá-lo. Agradar os outros acumula muito mérito e nos leva à Iluminação.

Agradar aos outros acumula tudo que é positividade, acumula amigos e riqueza, felicidade e segurança. Agradar aos outros com genuíno amor nos leva a galgar os mais altos degraus da posição social.

É pela análise, é pela observação racional e minuciosa que podemos nos convencer das imensas vantagens que afinal colhemos pela prática de anularmos os nossos interesses e dedicarmo-nos ao amor genuíno e verdadeiro aos demais. São imensos os frutos, espirituais e materiais.

O egoísmo, tentando engrandecer o “eu”, contraditoriamente é o principal inimigo do “eu”. Quem se sente só, quem se sente isolado, é devido ao egoísmo que se sente só e isolado. Quem se dedica aos demais, quem se dá aos demais, tem muitos amigos, atrai muitos amigos. Esta pessoa passa a ser respeitada e amada por todos, pelos homens e deuses. Até pelos animais. A bondade é algo que se irradia e atinge os outros, e é algo que faz bem aos outros, que os outros sentem.

É por esta prática que se começa a desenvolver a chamada bodhicita, ou mente de iluminação. A Bodhicita é o desejo de atingir o estado de Buda pelo bem de todos os seres. A Bodhicita é amor e compaixão. Amor se define pelo desejo de que o outro seja feliz. Compaixão se define pelo desejo de que o outro se liberte do sofrimento.

Algumas pessoas têm muito valor, muito saber, mas não são reconhecidas porque não desenvolveram a Bodhicita. Porque são egoístas. E como são egoístas, acumulam negatividades, geram negatividades e atraem negatividades para si. As pessoas egoístas não têm muitos amigos. Ao contrário, têm inimigos. Assim, o egoísta não consegue ajuda e socorro quando precisa, quando encontram problemas.

A nossa sociedade moderna se fundamenta no contrário, se baseia no egoísmo, no narcisismo. Por isso há muito sofrimento. O egoísmo gera ódio, o ódio é a raiz da guerra. Ao contrário, a nossa mente deve voltar-se para a maioria, para fora. Pensar na maioria nos faz crescer, como heróis. Por isso os Bodhisatvas são conhecidos como heróis.

Pensar no mundo, na humanidade, sem ilusões, sem fantasia, mas começando pelos mais próximos – isto nos faz crescer, aumenta a nossa capacidade de amar e de nos libertar a nós mesmos e aos outros.

Por isso devemos nos concentrar em pensar constantemente nos outros e não no nosso egoístico eu. Um dos modos de treinamento é o esforço por desenvolver a equanimidade. Com equanimidade nós não fazemos diferença entre eu e tu, entre amigos e inimigos, entre familiares e estranhos. Assim vemos que todos, como nós, querem a felicidade. E como nós também os outros buscam isso de diferentes maneiras. Nós também desenvolvemos a troca do eu pelos outros pelo raciocínio. Como nós, os outros também não querem o sofrimento, mas querem a felicidade.
É quando pensamos muito pouco em nós mesmos, e o tempo todo nos outros, que desenvolvemos a troca pelos outros, o trocar-se pelos outros.

O forte pensamento, o forte sentimento de beneficiar os outros, de que os outros estejam bem, é isso que se chama trocar a si pelos outros. É fazer surgir esse tipo de mente búdica, de mente de bodichita. Se o nosso trabalho, se a nossa mente for toda dirigida para o benefício dos outros nós seremos os principais beneficiados de nós mesmos e dos outros. Nós seremos incluídos.Aquilo que plantamos, colhemos. Quando plantamos para os outros, a riqueza vem abundante, automaticamente.

Quando só pensamos nisto, minuto a minuto, nós trocamo-nos pelos outros. É esse treinamento da mente a prática mais sagrada. Quando dominamos essa técnica conseguimos gerar compaixão espontânea, amor espontâneo.

A partir daí passamos a dar a nossa felicidade, e assumir o sofrimento dos outros. A compaixão é o insuportável sentimento de dor pelo sofrimento do outro. Os Budas são feitos da matéria da compaixão. Lentamente progredimos da pequena para a grande compaixão. Praticando diariamente.

Como o nosso tempo é da era degenerada, só investe nesta prática os heróis, ou seja, temos de ter coragem e constância. O esforço é necessário para atingir a experiência. Fazemos a seguinte promessa: “Eu tomo a responsabilidade de libertar a todos esses seres do sofrimento”.

(*1) – Um dos ramos do Budismo.

(*2) – Ser Iluminado

(*3) – Mente iluminada

Autor: Geshe Lobsang Tenpa

 

 

Sabedoria e Compaixão

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Sabedoria, que é chamada de a mãe dos budas, nada mais é do que a compreensão do vazio. Esse é o grande segredo do despertar. Todos os budas nascem dessa percepção, pois somente a sabedoria do vazio pode dar nascimento à iluminação. Sabedoria é a experiência directa, transformadora da realidade do vazio em nossas próprias vidas. É a certeza viva de que nada existe como uma entidade separada como normalmente acreditamos. […] vazio e sabedoria são vistos como o princípio feminino da iluminação, inseparavelmente unidos com o princípio masculino da compaixão e dos meios habilidosos, ou método.

Compaixão não é apenas um sentimento de piedade e empatia, mas uma força activa, uma energia fundamental que está incessantemente trabalhando para remover as causas do sofrimento. Não se pode evitar seu surgimento, porque na realização do vazio não existem fronteiras entre a própria pessoa e os outros. Compaixão é sensibilidade absoluta, amor imparcial e preocupação ilimitada por tudo na existência. É a expressão exterior natural da bem-aventurada da iluminação. […] Meios habilidosos significam a aplicação da compaixão, a actividade iluminada que se esforça para remover o sofrimento e conduzir todos os seres conscientes em direcção à suprema felicidade.

Vazio e compaixão são completamente interligados. A relação entre eles tem sido comparada à de uma chama e sua luz, ou a de uma árvore e suas folhas. A actividade no mundo não é verdadeiramente iluminada a não ser que brote da percepção de que, no sentido absoluto, nada está sendo feito ou precisa ser feito. Ao mesmo tempo, o coração desperto sente como seu próprio o sofrimento de todos que ainda não despertaram. […]

Autor: Francesca Fremantle

A Compaixão – Dalai Lama

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Movidos pela compaixão, os Bodhisattvas tomam o voto de libertar todos os seres sensíveis.

A compaixão é essencial nos estádios inicial, intermédio e final do desenvolvimento espiritual. De acordo com este popular ensinamento, os Bodhisattvas, grandes seres fortemente motivados e movidos pela compaixão, assumem o compromisso de alcançar o estado de omnisciência para o bem de todos os seres sensíveis. Esta determinação é o espírito de iluminação [Bodhicitta], que é um pensamento altruísta, derivado da compaixão.

Depois, superando a sua perspectiva egocentrada, empenham-se ardente e continuamente nas muito difíceis práticas de acumular mérito e conhecimento.

Pelo poder de gerar o espírito de iluminação [Bodhicitta], eles submetem-se ao treino dos Bodhisattvas, que inclui o desenvolvimento das seis perfeições, sem questionar quanto tempo será necessário até o consumar. Em resultado disso, tornam-se gradualmente aptos para acumular imenso mérito e conhecimento sem grande esforço.

Tendo entrado nesta prática, eles completarão certamente a acumulação de mérito e conhecimento. Realizar a acumulação de mérito e conhecimento é como ter a própria omnisciência na palma da vossa mão. Portanto, como a compaixão é a única raiz da omnisciência, deveis familiarizar-vos com esta prática desde o princípio.

O autor menciona aqui ser a compaixão a única raiz, ou fundamento, da omnisciência. A palavra «única» acentua ser a compaixão uma causa essencial da omnisciência, mas não nega outras causas e condições. Sublinha o facto de a compaixão ser uma causa necessária porque sem ela não se alcança a omnisciência. Mas se bastasse só a compaixão então seria contradita a anterior declaração sobre a necessidade de exercitar a compaixão, o espírito de iluminação [Bodhicitta] e os meios hábeis.

O Compêndio do Perfeito Dharma diz: « Ó Buda, um Bodhisattva não deve exercitar–se em muitas práticas. Se um Bodhisattva persistir correctamente num único Dharma e o aprender perfeitamente tem todas as qualidades do Buda na palma da sua mão. E, se perguntarem que único Dharma é esse, ele é a grande compaixão.»

Aqui o Buda fortemente sublinha a importância da compaixão. É na base da compaixão que o espírito de iluminação [Bodhicitta] é gerado, o indivíduo se empenha nas acções de um Bodhisattva e assim atinge a iluminação. O corolário da tese é que sem compaixão não podeis gerar o supremo espírito de iluminação [Bodhicitta] que acarinha os outros mais do que a si próprio. Sem esta atitude altruísta é impossível praticar as acções dos Bodhisattvas no Mahayana, como as seis perfeições. E sem seguir este procedimento não podeis alcançar o estado omnisciente da Budeidade. É por isto que a compaixão é tão importante.

Os Budas já atingiram todos os seus objectivos, mas permanecem no ciclo da existência enquanto aí existirem seres sensíveis. Isto porque possuem uma grande compaixão. Eles também não entram na morada imensamente bem-aventurada do nirvana como os Ouvintes. Considerando primeiro os interesses dos seres sensíveis, eles abandonam a pacífica residência do nirvana como se fosse uma casa de ferro ardente. Logo, só a grande compaixão é a inevitável causa do nirvana sem aí permanecer do Buda (ver nota).

A compaixão é altamente louvada em muitos tratados e nunca é demais salientar a sua importância. Chandrakirti pagou um largo tributo à compaixão, afirmando-a essencial nos estádios inicial, intermédio e final do caminho para a iluminação.

Inicialmente, o espírito de iluminação [Bodhicitta] é gerado tendo a compaixão por raiz, ou base. A prática das seis perfeições, e assim por diante, é essencial se um Bodhisattva pretende alcançar o objectivo final. No estádio intermédio a compaixão é igualmente relevante. E mesmo após a iluminação é ela que induz os Budas a não permanecerem no estado bem-aventurado de nirvana complacente. Ela é a força motivadora que permite aos Budas entrarem no nirvana sem aí permanecer e realizarem o Corpo da Verdade, que representa o cumprimento do vosso próprio objectivo, e o Corpo Formal, que representa o cumprimento das necessidades dos outros. Assim, pelo poder da compaixão, os Budas servem os interesses dos seres ininterruptamente enquanto o espaço existir. Isto mostra que o espírito de iluminação [Bodhicitta] permanece crucial mesmo depois de se atingir o destino final. A referência de Kamalashila a outro tratado de Chandrakirti sustenta a validade desta tese e tem ainda a vantagem de ajudar a persuadir a sua audiência.

Em geral, na tradição budista, as visões filosóficas não têm de ser provadas unicamente pela autoridade das escrituras. Com efeito, os indivíduos devem confiar em primeiro lugar na lógica e no raciocínio para ganharam fé e convicção na filosofia. Os objectos do conhecimento podem ser de um modo geral classificados como fenómenos óbvios, fenómenos parcialmente ocultos e fenómenos completamente ocultos. Não é necessário usar a lógica para provar a existência dos fenómenos óbvios. Podemos experimentá-los e compreendê-los directamente e assim verificar a sua existência. Uma vez que os fenómenos parcialmente ocultos não podem ser verificados pela experiência directa, necessitam de ser demonstrados aplicando a lógica. O objecto da análise é então compreendido por cognição inferida baseada na experiência. Várias linhas de raciocínio podem ser necessárias para realizar o propósito. Pessoas cuja compreensão está num nível inicial de desenvolvimento possivelmente não podem examinar os fenómenos totalmente ocultos através da ciência da lógica. Estes fenómenos também dificilmente podem ser provados através da nossa experiência. É aqui que temos de confiar numa válida autoridade das escrituras.

A fiabilidade, ou autoridade, dos ensinamentos das escrituras carece em primeiro lugar de ser demonstrada. Do mesmo modo, a validade, ou credibilidade, do mestre que deu tais ensinamentos deve ser provada. A autoridade das escrituras deve ser capaz de suportar uma análise em três linhas – que os ensinamentos referentes aos fenómenos óbvios não são contraditos pela apreensão directa; que os ensinamentos referentes aos fenómenos parcialmente obscuros não são contraditos pela cognição inferida; e que os seus ensinamentos referentes aos fenómenos muito obscuros não são contraditos pela cognição inferida baseada na fé. A validade desta autoridade das escrituras deve, por sua vez, ser testada pelo raciocínio lógico. Como se ensina que os ensinamentos são verdadeiros, ou válidos, quanto ao seu sentido principal, ou mais importante objectivo, a sua validade a respeito de outros objectivos pode ser entendida por inferência. O nosso principal objectivo é o estado de bem último (nirvana e omnisciência), enquanto um renascimento favorável como ser humano ou Deus é um objectivo vulgar. Pelo que, quando não se verifica que os ensinamentos que propõem o processo para realizar o bem último sejam falíveis segundo o exame lógico, simplesmente não é possível que o sejam no que concerne ao objectivo vulgar. É de senso comum considerar que quando algo é verdadeiro com respeito aos aspectos difíceis de uma questão, está para além de dúvida que o seja no que concerne matérias simples.

Além disso, o mestre que deu estes ensinamentos era uma pessoa honrada e digna de confiança. Atingiu a sua realização pelo poder da sua prática da compaixão. Porque possuía uma grande compaixão, estava verdadeiramente motivado para beneficiar todos os seres sensíveis. Pela força da grande compaixão deu os ensinamentos para demonstrar o curso da via que o ajudou a eliminar os obstáculos, passando para o estado da mais elevada perfeição. O Buda ensinou à luz da sua própria experiência e, uma vez que possuía uma realização directa da realidade última, era extremamente competente para revelar a verdade. O seu serviço foi incondicional e incansável, estando preparado para trabalhar em benefício dos seres sensíveis durante éons, sem considerar a natureza da tarefa implicada. Compreender e reflectir sobre estes assuntos deveria ajudar-nos a ganhar convicção na validade destes ensinamentos.

Por estas razões se diz ser sensato citar certos ensinamentos textuais para fundamentar uma tese ou uma prática. Este processo é muito útil – dissipa numerosas dúvidas injustificáveis e infunde novos vislumbres.

Capítulo 3 de Estágios da Meditação, S. S. Dalai Lama, Âncora Editora, 2001
Tradução: Paulo Borges
Revisão: Conceição Gomes