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Osho – A Essência da Paciência

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Pergunta – Amado Osho, qual é a essência da paciência?

Osho – A paciência tem sido explorada pelas pessoas. Há séculos temos a pobreza, e os povos foram aconselhados a apenas serem pacientes – “É um teste da sua confiança em Deus”. A eles foi apenas dito que fossem pacientes, que “é apenas uma questão de alguns anos e então iram entrar no paraíso”.

A paciência tem sido usada como parte da exploração de povos em todas as áreas, mas ela é uma linda qualidade. Ser paciente, para mim, significa confiança – confiança na natureza, na existência, em si mesmo. As coisas estão melhores a cada dia; o que quer que aconteça, a sua paciência encontra algo melhor para si. É uma alquimia muito grandiosa; transforma sofrimento em bênção. É um grande instrumento em suas mãos; apenas precisa entender que o instrumento deve ser usado por si, e não pelos outros sobre si.

Há mudanças constantes na vida – a vida é um fluxo. Heráclito diz: “você não pode pisar duas vezes no mesmo rio”. Eu digo-lhe a si: “Não pode pisar nem mesmo uma vez no mesmo rio”. O rio está continuamente movendo-se. Há altos, há baixos, há dias e há noites. A paciência consiste em ver as coisas de forma que tudo se torne uma alegria para si.

Por exemplo, pode pensar que todos os dias foram encapsulados entre duas noites escuras. Isto lhe trará miséria e tristeza: “oh, que vida, apenas um pequeno dia, e duas grandes noites escuras”. Um homem de entendimento verá cada noite como tão pequena entre dois lindos dias ensolarados. A vida é a mesma – é a sua perspectiva que muda.

Há pessoas que não olharão para as rosas, e sim para os espinhos. Elas sentirão profundo desespero pelo facto de a existência não produzir rosas sem espinhos, mas estarão prestando mais atenção aos espinhos do que às rosas. Um homem de entendimento amará a rosa, e enxergará o espinho como a protecção da flor. A mesma roseira está fornecendo seiva a ambos – à rosa e ao espinho. O espinho deve ter alguma função natural. Sua função é proteger a rosa – é um soldado, um guardião.

Uma vez que veja a vida de um ângulo diferente, o seu coração começa a pulsar de um jeito diferente. Tudo pode ser visto com olhos negativos, e há pessoas que pensarão em tudo desta forma. Elas se tornarão bons críticos, mas serão grandes fiascos na vida. Mas há uma maneira de se ver a vida com olhos positivos.

Eu estava visitando um palácio em Jaipur, na Índia. Jaipur é uma das cidades mais lindas do mundo; o homem que a estava criando, Maharaja Jai Singh, queria superar a beleza de Paris, mas morreu antes de completar o projecto. Então, Jaipur se tornou uma cidade incompleta, mas possuidora de tremenda beleza. Nenhuma outra cidade indiana possui esta sua qualidade.

No palácio, o neto de Maharaja, que agora tomou o lugar do avô, disse-me: “por favor, não repare se vir alguma coisa incompleta no palácio”.

Eu disse: “qual o problema”?

Ele disse: “Meu avô tinha uma certa visão de que nada deveria ser feito completo, porque se fosse, teria um certo ar de morte. As coisas deveriam permanecer incompletas, pois assim têm a possibilidade de crescimento. E por coincidência, ele não pôde completar Jaipur; ele morreu. Esta foi a filosofia de toda a sua vida: ele nunca fez nada completo. Alguma coisa sempre estará faltando, e as pessoas que vêem com olhos negativos imediatamente notam a coisa que está faltando. O palácio como um todo é tão lindo, mas toda a preocupação destas pessoas concentra-se na pequena pedra que está faltando, e elas ficam frustradas.”

Talvez Maharaja Jai Singh tinha algum entendimento da vida.

Na vida nada é perfeito, tudo tem alguma imperfeição. Imperfeição significa que a vida ainda está desenvolvendo-se, que a evolução ainda está acontecendo. O dia em que tudo estiver completo será o pior dia da existência, pois neste dia tudo se tornará morto. Não haverá crescimento, não haverá necessidade de evolução; tudo estará confinado. Não olhe para as imperfeições; olhe para a tremenda beleza que circunda as pequenas imperfeições.

É uma mudança de perspectiva que traz paciência para si. Então entende que tudo é bom, e que tudo será ainda melhor, pois há séculos vem se tornado melhor e melhor. Não há necessidade de se preocupar com o amanhã; amanhã será melhor. A existência toda está engajada em melhorar a si mesma. Você apenas tem de ser um pouco paciente; você não deve ter pressa. Você não deve pedir que tudo lhe seja dado agora.

Tudo vem no tempo certo.
Tudo vem quando você está maduro.
Tudo vem quando você merece. Esta é a minha experiência.

Nos últimos trinta anos eu não senti, nem mesmo por um único momento, nenhuma impaciência, e testemunhei que tudo segue se tornando melhor e melhor. A própria existência está envolvida neste processo; somos parte dela, não há motivos para se preocupar. Mesmo algo que parece escuro hoje pode se revelar apenas o começo de uma nova aurora. A noite é mais escura logo antes do amanhecer.

Apenas observe a vida. Tente entender a vida, e a paciência virá até si por conta própria.

Ter paciência não significa engolir sapos

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Estamos vivendo um crescente paradoxo: a vida moderna, com os seus meios de comunicação cada vez mais velozes, vem requisitando ter mais e mais paciência. Se pensamos estar ganhando tempo ao aplicar a tecnologia moderna ao nosso quotidiano, é melhor reconhecermos que desta forma temos perdido a habilidade de lidar com o nosso tempo interno: estamos cada vez mais impacientes.

Queremos que o nosso mundo interno, as nossas emoções, sentimentos e percepções, fluam com a mesma velocidade máxima da Internet… Como não toleramos esperar o tempo natural do amadurecimento de nossas emoções, sofremos a dor da impaciência: semelhante a uma queimadura interna, ardemos de ansiedade!

Intuitivamente, sabemos que algo não vai bem, mas como temos a urgência de nos livrarmos da pressa interna cada vez mais estimulada pela aceleração dos acontecimentos, não temos mais tempo para sentir, compreender e transformar nossas emoções.

Sofremos um grande paradoxo: cada vez que produzimos mais no mundo externo, criamos menos no mundo interno. Podemos estar ganhando mais tempo e espaço à nossa volta, mas temos de admitir que estamos perdendo a habilidade de lidar com nosso tempo e espaço internos.

Paradoxo é uma contradição, algo que ocorre ao contrário do esperado. Todos nós, com a inocente esperança de viver melhor, assumimos mais compromissos do que podemos e depois nos surpreendemos com problemas mais sérios e inesperados do que imaginávamos enfrentar. Quando as coisas não funcionam de acordo com as nossas expectativas, temos cada vez menos paciência, nos tornamos mais rígidos e cansados.

Por que continuamos nesta roda viva se já temos consciência de suas consequências? Acredito que parte da  nossa confusão interna está no facto de que compreendemos erroneamente a virtude da paciência. Por ignorância, insistimos num esforço insensato. Por exemplo, quem já não confundiu a experiência de achar que estava tendo paciência quando na realidade estava engolindo sapos?

Enquanto confundirmos auto-controlo com a capacidade de reprimir os nossos sentimentos, em vez de conhecê-los, estaremos correndo o risco de tolerar o que não é para ser tolerado! Em certas situações adversas, podemos pensar que estamos tendo paciência, quando, na verdade, estamos apenas sobrecarregando. Suportamos o sofrimento externo às custas de muito sofrimento interno.

Ser paciente não significa sobrecarregar-se de sofrimento interno, nem estar vulnerável ou ser permissivo com relação às condições externas. Ter paciência não é ser uma vítima passiva da desorganização alheia. Não é útil, por exemplo, ter paciência em uma situação em que se esteja sendo explorado.

Segundo a psicologia do budismo tibetano, ter paciência é a força interior de não se deixar levar pela negatividade. Ter paciência é escolher manter a clareza emocional quando o outro já a perdeu. Neste sentido, ter paciência é decidir manter sua mente limpa, livre da contaminação da raiva e do apego.

No entanto, não basta termos uma intenção clara quanto a nossas escolhas, é preciso desenvolver a força interior para sustentá-las. Neste sentido, não basta compreender racionalmente o que é ter paciência, é preciso cultivá-la interiormente. Temos de admitir que o tempo de que precisamos para amadurecer uma compreensão emocional é muito maior do que aquele de que necessitamos para sua compreensão racional.

Segundo o budismo tibetano, há três tipos de paciência:
1. Não se aborrecer com os prejuízos infligidos pelas outras pessoas, isto é, não nos abalarmos quando somos intencionalmente provocados e feridos.
2. Aceitar voluntariamente o sofrimento para si: se alguém demonstra ter raiva, não deve responder com raiva; ou, se alguém o magoa ou insulta, não deve reagir, mas sim compreender o porque da outra pessoa não ter tido controlo sobre as suas emoções.
3. Ser capaz de suportar os sofrimentos próprios do desenvolvimento espiritual.

Inicialmente, poderíamos avaliar estes tipos de paciência como um estado de covardia ou de submissão aparentemente masoquista. Se, ao não reagirmos diante de uma provocação, estivermos apenas tentando conter nossa raiva e não buscando transformá-la, acabaremos por implodir e iremos ser rancorosos. Enquanto o auto controlo excessivo nega as nossas necessidades internas, o auto-controlo saudável não reprime os sentimentos: lida directamente com eles.

Lama Gangchen notou que para nós, ocidentais, a palavra paciência está contaminada por um sentimento de suportar uma dificuldade, ao invés de estar associada à intenção de nos libertarmos dela. Então, ele sugere que troquemos a palavra paciência por espaço. Na próxima vez que pensar: Preciso de paciência com fulano, diga para si mesmo: Preciso criar espaço entre mim e fulano. Não se trata de  distanciar-se de alguém, como numa fuga, mas sim de recuperar a sua autonomia emocional.

Auto-controlo advém do autoconhecimento. Uma vez que soubermos reconhecer os nossos limites, seremos capazes de não perder o controlo simplesmente por respeitá-los. Saberemos o momento certo de parar quando não temermos mais  sentirmo-nos  impotentes diante dos factos, pois, ao reconhecer os nossos limites, aprendemos que dar murro numa ponta de faca irá ferir-nos ainda mais. Isto não quer dizer que iremos tornarmo-nos em covardes. Ao contrário, por meio da paciência, conseguimos desenvolver uma auto-imagem capaz de confiar na capacidade de seguir em frente de forma segura e contínua, sem precisar lutar contra o mundo. A possibilidade de cultivar a paciência advém da força de ir além da negatividade, ao invés de interagir com ela.

Para saber se estamos praticando verdadeiramente a paciência, podemos observar o quanto as nossas palavras e comportamentos têm ferido os outros. Do mesmo modo, estaremos magoando menos se respeitarmos a necessidade natural de ter tempo e espaço para estar com nossas emoções, sejam elas positivas ou negativas.

Autora: Bela César