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Impasses da Vida: Visão Budista da Actualidade

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Jamais permita que os impasses da vida o perturbem. Afinal, ninguém pode escapar dos problemas, nem mesmo santos ou sábios. Sofra o que tiver que sofrer. Desfrute o que existe para ser desfrutado. Considere tanto o sofrimento como a alegria como fatos da vida. As pessoas não existem em função da religião. É a religião que existe em função das pessoas. Mesmo na política não é o povo que existe em função dos políticos. São os políticos que existem em função do povo. No ensino, os professores existem em função dos alunos. Os médicos existem, acima de tudo, em função dos pacientes. Também a existência dos advogados, cientistas, jornalistas, tudo se resume em função do povo. Entretanto, na maioria das vezes, essa posição está invertida. Utilizam-se do povo para os seus próprios interesses e satisfações. Aqueles que exploram a religião para seus próprios fins egoístas oprimem e denigrem as pessoas. Eles tiram impiedosamente vantagens dos outros, apossando-se do que podem e então, cruelmente, deixam as pessoas de lado quando não tem mais nada a oferecer. Da mesma forma, aqueles que exploram o mundo da política para o seu próprio fim compartilham do mesmo desprezo pelas pessoas. Os senhores não devem ser enganados por esse tipo de pessoa. As pessoas não existem para beneficiarem os líderes. O que deve ocorrer é justamente o oposto. Os líderes, inclusive políticos e clérigos existem para beneficiar as pessoas. Os professores por sua vez, existem para o bem dos estudantes. Entretanto, muitos dos que se encontram em posições de liderança comportam-se arrogantemente, denigrem as pessoas.

Autor: Daisaku Ikeda

Visão Budista sobre a Inveja

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Trecho do livro ”Felicidade – A prática do Bem Estar” de Matthieu Ricard.

Estranho sofrimento, a inveja. Sentimos inveja da felicidade que os outros têm certamente não da sua infelicidade. Isso não é ridículo? Não seria natural desejar a felicidade dos outros? Porque sentir desconforto quando as pessoas à nossa volta estão felizes? Por que sentir despeito das boas qualidades que têm? O oposto da inveja é regozijar-se com todas as alegrias, pequenas ou grandes, que os outros vivenciam. Dessa maneira, a felicidade deles se torna nossa também.

A inveja não tem o lado atraente do desejo, não vem disfarçada de justiceira como a raiva, não se enfeita com ornamentos sombrios como o orgulho e nem mesmo é preguiçosa como a ignorância. Não importa sob que luz seja examinada, sempre surge como algo detestável. Eis o retrato que Voltaire faz dela:

                        A sombria Inveja, de tons pálidos, lívida,

                        Seguindo, cambaleante, a Suspeita que a guia.

Há diversos graus de inveja e ciúme, uma vasta gama que vai de uma leve inveja à fúria cega e destrutiva. Existe a inveja branda, quotidiana, que se destila em pensamentos semiconscientes e emerge em comentários depreciativos. É uma inveja que se traduz em uma leve maldade contra um colega que vai melhor do que nós, ou em cáusticas reflexões sobre um amigo para quem a sorte sempre parece sorrir. A essa inveja leve se opõe a obsessão sempre repetitiva, que explode às vezes em um acesso de fúria incontrolável, quando ocorre uma infidelidade, ou um rival recebe uma distinção que esperávamos para nós. A inveja e o ciúme derivam da incapacidade fundamental de se regozijar com a felicidade ou o sucesso do outro. O homem ciumento ensaia o insulto sua mente, esfregando sal na ferida muitas e muitas vezes, fazendo com que seja impossível ser feliz naquele momento.

Em qualquer caso, a inveja é produto de uma ferida no nosso ego, na nossa auto-importância, não passando, portanto, de uma ilusão. Mais, ainda, a inveja e o ciúme são um contra-senso para aquele que os sente. Pois, ao não ser que se recorra à violência, a única vítima desses sentimentos é aquele que os alimenta. A sua fúria e o seu ressentimento não evitam que o alvo da inveja desfrute sucesso, riqueza ou distinção.

Precisamos considerar o seguinte: o que a felicidade dos outros pode realmente tirar de nós? Nada, é claro. Só o ego fica ferido com ela e a sente como uma dor. É ele que não suporta o bem-estar alheio quando estamos deprimidos ou a saúde alheia quando estamos doentes. Por que não tomar a alegria dos outros como uma fonte de inspiração, um exemplo vivo de felicidade realizada, em vez de fazer dela motivo de aborrecimento e frustração?

E quanto ao ciúme que surge de um sentimento de injustiça ou traição? Ser enganado por alguém com quem temos uma ligação profunda parte o nosso coração, mas, de novo, o responsável por esse sofrimento devastador é o amor a si mesmo. La Rouchefoucauld observa nas suas “Máximas” que “no ciúme há mais amor-próprio do que amor”.

Uma amiga confidenciou-me recentemente: “A infidelidade do meu marido magoa-me no mais íntimo e profundo de mim mesma. Não posso suportar a ideia de que ele seja mais feliz com outra mulher. Fico-me fazendo a mesma pergunta, sem cessar: ‘Por que não eu? O que ele encontra nela que eu não tenho?’”

Mesmo sendo difícil manter a imparcialidade em tais circunstâncias, quem cria essa dificuldade senão o ego? O medo do abandono e o sentimento de insegurança estão intimamente ligados à falta de liberdade interior. A preocupação consigo mesmo, a absorção em sim mesmo – com o seu inseparável cortejo de medo e esperança, atracção e rejeição – é a maior inimiga da paz interior. Se não, o que impediria de nos regozijarmos ao ver uma pessoa amada encontrar mais felicidade com o outro qualquer? Não é uma tarefa fácil, mas se realmente queremos que a outra pessoa seja feliz, não podemos definir a maneira como ele deve agir para consegui-lo. Só o ego tem a audácia de afirmar: “A sua felicidade depende da minha”. Como escreveu Swami Prajnanpad: “Quando você ama alguém, não pode esperar que essa pessoa faça as coisas de maneira que lhe agrada. Isso seria o equivalente a amar a si mesmo”. 

Se conseguíssemos pensar com clareza, ainda que remotamente, deveríamos ter a coragem de tentar abster-nos de reforçar as imagens mentais que nos torturam, bem como a obsessão que nos faz sonhar com cruéis represálias contra aquele ou aquela que “usurpou” a pessoa de quem sentimos ciúme. Essas imagens e essa obsessão se devem inteiramente ao fato de termos nos esquecido do nosso potencial interior para a paz e a ternura. Uma pessoa que está em paz pode compartilhar a sua felicidade, mas não encontra utilidade alguma no ciúme. Útil será gerar empatia e amor altruísta por todas as pessoas, inclusive os nossos rivais. Esse antídoto curará a ferida e a seu tempo a inveja e o ciúme desaparecerão, como um sonho ruim.