Budismo dos podcasts e apps de meditação é autêntico?

Já utilizaste aplicações ou ouviste podcasts relacionados com o Budismo? Se sim, já deverás ter pensado em algum momento se o blBudismo que ali representado é autêntico ou não. Alguns estudiosos disseram que o Budismo Digital resume a apropriação e diluição ocidental das práticas tradicionais asiáticas. Em vez disso, o filósofo esloveno Slavoj Žižek entende como uma personificação do espírito tardio do capitalismo.

Argumentos contra o Budismo digital.

Os três argumentos que os estudiosos costumam apontar contra o Budismo Digital são os seguintes:

Primeiro Argumento: Alguns estudiosos argumentam que o budismo online difere das formas anteriores, não na mensagem, mas na forma como é transmitida.

Segundo argumento: Outros estudiosos olham como mero consumismo popular. Somente nas tradições historicamente ricas e complexas é que a sabedoria deverá ser levada de forma séria. Olham para certos aspectos como uma “reembalagem selectiva” para obter ganhos monetários.

Terceiro argumento: Alguns estudiosos vão mais longe e possuem uma visão de uma apropriação inapropriada das tradições asiáticas pela cultura popular ocidental. Como aponta a estudiosa religiosa Jane Iwamura: “Isso obscurece as vozes dos verdadeiros Budistas de ascendência asiática”.

A verdadeira Natureza da Felicidade

Há algo que todos os estudiosos que são contra o budismo digital não têm na sua mente: o profundo desejo de muitos Budistas ocidentais de ter uma intensa experiência espiritual. Para entender o que eles querem dizer com autenticidade, devemos olhar para os termos filosóficos gregos “hedónico” e “eudaimónica”. O conceito de hedonismo refere-se ao seguinte: o objectivo final da vida deve ser maximizar o prazer. E o que a cultura popular actual faz? Pois bem, tem como foco, a felicidade hedónica, que valoriza uma visão extrovertida, sociável e alegre da vida. Por isso, muito do Budismo digital que vemos nas aplicações de meditação promove momentos de felicidade pessoal, calma e relaxamento. Em vez disso, eudaimonia significa a condição de “bons espíritos”, que é comumente traduzido como “florescimento humano”. De facto, para Aristóteles, a eudaimonia é o fim mais elevado. O estudioso britânico da ética Budista Damien Keown argumenta que há uma ressonância entre a ética budista e a ética da virtude aristotélica. Keown pensa que no Budismo, o cultivo da felicidade eudaimónica, se não for suficiente, é necessário para manter uma vida boa. E que é a preocupação com o bem-estar dos outros, humanos e não humanos, que leva a uma vida feliz que vale a pena ser vivida.

Então, o que é prática autêntica?

Devemos ter em mente que o Budismo foi modificado e traduzido para novas culturas, milhares e milhares de vezes. E sim, é verdade que o Budismo ocidental online mostra que foi traduzido para se adequar à nossa sociedade de consumo. A prática Budista digital aborda a boa vida como eudaimónica. Ou seja, que leva ao florescimento humano baseado na busca de um significado mais profundo, poderíamos dizer que é autêntico. Uma prática inautêntica é aquela que simplesmente promove o hedonismo, apenas felicidade e relaxamento.

Kum Nye – A Ioga Tibetana.

A palavra “kum” significa “corpo ou corporificação”, e “nye”, “massagem ou interacção”. O Kum Nye é, essencialmente, a massagem, o cultivo do sentimento activado pelo corpo. A ioga tibetana é diferenciada por uma série de exercícios simples, porém eficientes e curativos, que visam aliviar o stress, promover o equilíbrio e a saúde e aumentar a satisfação e a apreciação pela vida. Durante séculos, o Kum Nye Yoga foi uma tradição oral e, posteriormente, foi sistematizado e adaptado para o Ocidente por Tarthang Tulku Rinpoche, o lama-chefe da linhagem Nyingma. “Ele observou que os novos alunos tinham dificuldade de ficarem sentados por longos períodos. Havia inquietações, distrações mentais e desconforto físico. Para ajudá-los, o lama introduziu exercícios de ioga Kum Nye antes da meditação e obteve resultados muito positivos: pessoas que haviam tentado meditar sem sucesso por meses, ou mesmo anos, foram capazes de aquietar o corpo e a mente usando esses exercícios”, explica Wanessa Nemer – Instrutora. Segundo ela, “a prática é fundamentada em teorias dos sistemas de energias densas e subtis do corpo, que são a base da medicina tibetana e das disciplinas do budismo sobre o corpo e a mente, e em textos Vinaya do budismo, que descrevem como viver de acordo com as leis físicas e universais”.

O Kum Nye é um sistema de cura que usa posturas, movimentos lentos e respiração para restaurar a totalidade do ser através da consciência corporal e pode ser realizado por pessoas de todas as idades, sem qualquer restrição. “O sistema de relaxamento Kum Nye aborda holisticamente o corpo e a mente, integrando e equilibrando o físico e o psicológico para gerar saúde. Corpo e mente parecem necessitar de relaxamento, especialmente no mundo de hoje, onde as actvidades do dia a dia geram muito stress. Eles dissolvem as tensões do corpo e da mente, e as energias da vida começam a fluir mais livremente”, diz Wanessa. A instrutora explica que se trata de uma prática de cura e “uma preparação para estabelecer e sustentar um sentido de inteiro com o qual se torna possível tocar a calma e obter clareza interna”. “Quando contactamos a calma, o relaxamento começa. A prática ajuda nos tratamentos de sintomas de ansiedade, depressão e síndrome de pânico, mas sempre recomendamos que o aluno também procure atendimento médico ou de profissional qualificado para sintomas mais graves”, explica.

Embora seja uma tradição predominantemente oral, os textos médicos tibetanos referem-se à ioga Kum Nye “como uma forma de cura de pensamentos e ações negativas, comportamento e dietas impróprios, que são resultantes do desequilíbrio e bloqueio de energia. Descrito em termos gerais nos textos Vinaya do budismo (ensinamentos que guiavam a conduta de monges e monjas), a ioga Kum Nye é vista como uma forma de alívio para a fadiga derivada de longos períodos de meditação”, ressalta Wanessa Nemer. A ioga Kum Nye, diz ela, “é parte das teorias e práticas médicas e espirituais que ligam a medicina tibetana à medicina indiana e chinesa”. “Esta linhagem deu origem a muitas disciplinas, tais como a ioga e a acupuntura, e está nas raízes de muitas outras mais recentes que tratam do corpo e da mente”, relata.

Benefícios

. Alivia o stress

. Promove o equilíbrio e a saúde

. Aumenta a satisfação e apreciação pela vida

.Ajuda na concentração e na meditação

.Integra o corpo e a mente.

Quem é desapegado é frio? | Tenzin Palmo

“No coração da vida”, livro da Monja Budista Jetsunma Tenzin Palmo, numa determinada pasagem, ela falava sobre o DESAPEGO trazendo uma reflexão que muita gente faz e que mostra o quanto verdadeiramente não sabem o que é o desapego, uma das maiores virtudes que os seres humanos podem desenvolver.

Ela afirmou: “As pessoas pensam que se alguém é desapegado, é frio. Mas isso não é verdade. Qualquer um que encontre um dos grandes mestres espirituais, realmente desapegados, ficará impressionado com o afecto deles por todos os seres, não só aqueles dos quais gostam ou com quem se relacionam. O desapego liberta algo muito profundo dentro de nós, porque liberta aquele nível de medo. Todos nós temos muito medo: medo de perder, medo da mudança, uma incapacidade de simplesmente aceitar.”

Ela está dizendo por outras palavras, que só depois de nos livrarmos dos nossos medos mais profundos é que podemos de facto ser desapegados. Quanto mais desapegados nós somos maior a nossa capacidade de amar a todos com PLENITUDE, com ENTREGA, sem nenhum tipo de exigência, de cobrança nem expectativas.

Ao longo desse livro ela também fala muito sobre o amor apegado e amor desapegado. Se tenho o amor desapegado, eu deixo a pessoa seguir a sua vida a qualquer momento. Se ela de repente não me quiser mais na sua vida, simplesmente digo: “Seja feliz! Se a minha presença não lhe agrada mais, tudo que quero é a sua felicidade, vá em paz…”.

Quantos de nós consegue reagir dessa maneira quando alguém decide ir embora das nossas vidas? Umq minoria. O nome disso é DESAPEGO, e somente com muito amor no coração é que podemos deixar as pessoas irem sem ressentimentos e mágoas.

O medo que carregamos no nosso coração é muito profundo, e por causa desse medo agarramo-nos às pessoas que amamos e de forma totalmente ilusória confundimos isso com amor.

O resumo do que se vem dizendo é isso. Aprofunde cada vez mais o autoconhecimento, porque ele nos leva a desenvolver mais o amor próprio. Aprendendo a amarmos mais a nossa pessoa, consequentemente o amor às outras pessoas irá crescer na mesma proporção. Quanto mais amor eu nutrir pelos outros, menos medo terei no meu coração. E quando chegar a esse patamar de não ter mais medo da vida, entrarei no já mencionado “Coração da Vida”.

Base para as Boas Qualidades | Tsongkhapa

(1) A confiança (saudável) num gentil mestre espiritual, a base para todas as boas qualidades, é a raiz do caminho. Vendo isso, peço inspiração para que nele confie com grande estima, em muitas iniciativas.

(2) Esse excelente material de trabalho, que permite liberdades temporárias, e que encontramos apenas uma vez, é difícil de ser obtido. Certo da sua grande importância, peço inspiração para desenvolver, sem interrupções, uma atitude de aproveitá-lo de todas as formas, dia e noite.

(3) Na hora da morte, o meu corpo e força vital se esvairão rapidamente, como bolhas bum riacho. Lembrando disso, e com a certeza de que após a morte os frutos de minhas acções brilhantes e obscuras me seguirão,

(4) Como a sombra segue o corpo, peço inspiração para me livrar até mesmo da menor a ção que possa dar origem a uma rede de falhas, e efectuar todas as acções que possam originar uma rede de forças positivas.

(5) Os esplendores da existência compulsiva, mesmo quando aproveitados, nunca nos satisfazem; porta para todos os problemas, não servem para dar segurança à mente. Ciente desta armadilha, peço inspiração para desenvolver um grande e ávido interesse pelo êxtase da liberação.

(6) Induzido por esse pensamento puro e motivador, peço inspiração para realizar com presença mental, atenção e muito cuidado, as práticas de libertação individual, a raiz dos ensinamentos.

(7) Assim como caí no oceano da existência compulsiva, todos os outros seres sencientes também caíram — eles foram as minhas mães. Vendo isso, peço inspiração para gerar o supremo ideal de bodhichitta e tomar para mim a responsabilidade de libertar todos os seres sencientes.

(8) Mesmo tendo tomado apenas esta única resolução, se não tiver como hábito os três tipos de disciplina ética, não conseguirei atingir o [supremo] estado purificado. Vendo isso, peço inspiração para treinar com muito esforço nos votos de bodhisattva.

(9) Peço inspiração para desenvolver rapidamente no meu continuum mental um caminho que combine uma mente quieta e assentada com uma mente excepcionalmente perceptiva; acalmando a mente que se distrai com objectos que a distorcem e discernindo apropriadamente o significado correcto [da vacuidade].

(10) Quando tiver treinado os caminhos usuais e tornado-me um vaso, peço inspiração para facilmente entrar no Veículo Adamantino, o supremo entre os veículos, a trilha sagrada dos afortunados.

(11) Então, quando estiver absolutamente certo de tudo o que foi dito, que a base para obtermos os dois tipos de realização são as práticas que estreitam nossos vínculos e a manutenção pura dos votos, peço inspiração para mantê-los mesmo que isso me custe a vida.

(12) Então, compreendendo correctamente os pontos essenciais dos dois estágios que são a essência das classes do tantra, peço inspiração para actualizá-las de acordo com a fala iluminada do Sagrado, nunca me afastando da conduta das quatro sessões (diárias) de yoga. 

(13) Peço inspiração (bençãos) para que os pés dos mentores espirituais que indicam esse excelente caminho, e os dos amigos que o praticam adequadamente, permaneçam firmes e que as interferências internas e externas sejam acalmadas.

(14) Que eu nunca, em todas as minhas vidas, separe-me dos gurus perfeitos; que eu dê bom uso ao dharma perfeito; e ao atingir completamente todas as boas qualidades dos estágios e caminhos, que eu rapidamente alcance o estado de Vajradhara.

Quatro chaves para o bem-estar segundo os Budistas.

Um dos maiores especialistas do mundo sobre os efeitos da meditação cerebral, Richard J. Davidson, estudou os mais conceituados especialistas em meditação (aqueles que já praticaram cerca de 10.000 horas).- incluindo o monge francês Matthieu Ricard e mestre budista Rinpoche Mingyur meditado.

A partir dos seus estudos, Davidson acredita que existem quatro qualidades da mente que são a base do bem-estar verdadeiro. Essas qualidades estão relacionadas à neuroplasticidade, ou seja, qualquer indivíduo pode treinar para desenvolvê-las, sendo que a meditação pode exercer uma ajuda relevante nos resultados.

1. Resiliência

Um mundo impermanente, como ensinado pelo Buda, produz sofrimento. É inevitável que tenhamos momentos ruins, momentos difíceis. A chave é como respondemos a eles e como somos capazes de nos recuperar. A resiliência é a velocidade com que alguém se recupera da adversidade, que está associada ao bem-estar. A meditação melhora essa habilidade; No entanto, para que haja diferenças notáveis, deves meditar cerca de 10 mil horas. Essa é a qualidade que leva mais tempo para produzir benefícios. No entanto, uma prática intermediária de meditação pode ajudar em geral com apego e, portanto, criar uma atitude mais saudável antes das emoções.

2. Prospecção

Davidson descreve esta qualidade como a capacidade de ver o lado positivo nos outros e na vida em geral, têm uma exploração positiva. No budismo e as religiões em geral, isto é conhecido como ver a bondade inata de todos os seres. Meditação da compaixão prática (como metta ou tong-len ) leva rapidamente a activações em circuitos cerebrais ligadas à prospecção ou a maneira que abordar as coisas. Gerar pensamentos de compaixão, muda o teu cérebro e te faz feliz.

3. Atenção

Essa é a qualidade que talvez seja mais urgente de ser cultivada no mundo moderno, bombardeada por estímulos fragmentados de informação digital. De facto, a nova economia é baseada na captura de informações de pessoas. É por isso que alguns professores de meditação, como Alan Wallace, consideram que, como espécie, temos um déficit de atenção global. Além disso, existem numerosos estudos que mostram que a distracção e a ruminação estão associadas à depressão e ansiedade. Por outro lado, os chamados estados de ” fluxo ” são caracterizados pela concentração. Davidson acredita que a meditação é uma maneira de educar a atenção.

4. Generosidade

Segundo Davidson, comportamentos generosos e altruístas, ou simples gratidão, estão associados ao sentimento de bem-estar. Novamente, meditações que geram um senso de amor ou compaixão produzem a activação de circuitos neurais ligados ao bem-estar. Certamente, quando uma pessoa ora por outra pessoa, a mesma coisa acontece.

Meditação do Amor

Primeiro para si, depois para alguém próximo, depois para um grupo de pessoas neutro, depois para alguém com quem temos dificuldade de nos relacionar. Prática deixada por Buda, adaptada por Buddhagosha e mais recentemente pelo mestre Thich Nhat Hanh

“Que eu seja pacífico, feliz e leve de corpo e espírito.
Que eu possa estar seguro e livre de traumas e acidentes.
Que eu fique livre da raiva, aflições, medo e ansiedade.

Que eu aprenda a olhar para mim mesmo com os olhos do entendimento e do amor.
Que eu seja capaz de reconhecer e tocar as sementes de alegria e felicidade em mim mesmo.
Que eu aprenda a identificar e ver as fontes de raiva, desejo e ilusão em mim mesmo.

Que eu saiba nutrir as sementes da alegria em mim mesmo todos os dias.
Que eu possa viver revigorado, estável e livre.
Que eu esteja livre de apego e aversão, mas não indiferente.”

Thich Nhat Hanh no livro Ensinamentos sobre o Amor

5 Treinos da Mente | Thich Nhat Hanh

Primeiro treino da mente

Consciente do sofrimento causado pela destruição de tudo o que seja vivente, comprometo-me a cultivar a compaixão e a aprender a proteger as vidas de pessoas, animais, plantas e minerais. Estou decidido a não matar, a não permitir que matem e a não aderir a qualquer forma de destruição de vida no mundo, na minha forma de pensar e no meu modo de vida.

Segundo treino da mente

Consciente do sofrimento causado pela exploração, a injustiça social, o roubo e a opressão, comprometo-me a cultivar a bondade amorosa e a aprender a trabalhar pelo bem estar de pessoas, animais, plantas e minerais. Praticarei a generosidade partilhando o meu tempo, energia e recursos materiais com quem necessite. Estou decidido a não roubar e a não ter em minha posse aquilo que pertença a outros. Respeitarei o património dos demais e não permitirei que se aproveitem do sofrimento humano ou do de outras espécies do Planeta.

Terceiro treino da mente

Consciente do sofrimento causado pela má conduta sexual, comprometo-me a cultivar a responsabilidade e a aprender a proteger e garantir a integridade de pessoas, casais, famílias e sociedade. Estou decidido a não ter relações sexuais sem que haja amor e sincero compromisso. Para preservar a minha felicidade e a dos demais, comprometo-me a respeitar tanto os meus compromissos quanto os dos demais. Envidarei todos os meus esforços para proteger crianças de abusos sexuais e para impedir a separação de casais e famílias devido à má conduta sexual.

Quarto treino da mente

Consciente do sofrimento causado pela palavra leviana e a incapacidade de escuta, comprometo-me a cultivar a palavra amorosa e a escuta profunda para trazer alegria e felicidade aos demais aliviando seus sofrimentos. Ciente de que as palavras tanto criam felicidade quando sofrimento, estou decidido a dizer a verdade usando palavras que inspirem confiança, alegria e esperança. Não divulgarei informação sem me assegurar da sua veracidade e não criticarei nem condenarei sem ter certeza. Evitarei palavras que possam causar divisão ou discórdia, fragmentar famílias ou comunidades. Farei tudo ao meu alcance para reconciliar e resolver todos os conflitos, por menores que sejam.

Quinto treino da mente

Consciente do sofrimento causado pelo consumo leviano, comprometo-me a cultivar saúde física e mental para mim, a minha família e a sociedade, praticando a plena atenção enquanto me alimento, bebo, me informo, ou adquiro bens de consumo. Ingerirei apenas itens que preservam a paz, o bem estar e a alegria no meu corpo e consciência e no corpo e consciência da minha família e sociedade. Estou decidido a não consumir álcool ou outros tóxicos ou de ingerir alimentos ou adquirir bens de consumo e informações que contenham toxinas tais como alguns programas de televisão, revistas, livros, filmes e temas de conversação. Estou ciente de que, permitindo que tais venenos causem danos ao meu corpo ou consciência, estaria traindo os meus antepassados, parentes, a sociedade em que vivo e as gerações futuras. Envidarei todos os esforços na transformação da violência, medo, raiva e confusão em mim e na sociedade adoptando uma dieta e hábitos de consumo salutares para mim e para a sociedade, vitais para a minha transformação e a para transformação da sociedade.

Como funciona a nossa mente, segundo o Budismo?

Em tempos de mudanças, devemos todos estar atentos a condicionamentos cristalizados no nosso cérebro/mente. Abrir uma brecha na nossa e entrar mais profundamente em contacto com a consciência do momento presente, requer uma atitude decisiva e bastante difícil para todos nós: o desapego.

Segundo o Budismo Tibetano, a mente é considerada como a base universal da experiência, criadora da felicidade e do sofrimento. Nessa filosofia, a mente divide-se em muitos aspectos, mas, especialmente em dois: a mente ordinária chamada sem, que na teosofia seria o corpo mental inferior e rigpa a consciência primordial ou corpo mental superior. Sem é dualista, discursiva, pensante, precisa de um ponto de referência externo para funcionar. Através dela pensamos, planeamos, manipulamos, expressamos as avalanches de emoções que nos absorvem e também os pensamentos negativos que acumulamos e que continuamos alimentando a partir da fragmentação e conceitualização das nossas experiências. É através dela que criamos e alimentamos nossa instabilidade, pois ela está, o tempo todo, presa às influências externas, aos nossos maus hábitos e condicionamentos.

Os mestres dizem que sem é como a chama de uma vela em meio a uma corrente de vento, instável e vulnerável. A sua energia é consumida e lançada aos acontecimentos exteriores. É dentro desse ambiente mental que passamos pelas experiências de dor, pelas mudanças e transformações.

Já a essência mais profunda da mente é de natureza absoluta e intocável pelas mudanças e crises a que todos nós estamos sujeitos e vulneráveis. A outra qualidade da mente, rigpa,  está obscurecida pela correria do dia a dia e pelos nossos pensamentos e emoções. Mas, da mesma maneira que uma rajada de vento pode dissipar as nuvens e revelar a luz do sol, algumas práticas específicas ou algum instante de inspiração podem nos revelar vislumbres dessa mente superior. É claro que esses vislumbres possuem diferentes graus e profundidade, mas, por menor que seja a nossa experiência, ela sempre trará, a qualquer um de nós, maior entendimento, significado e sensação de liberdade. Rigpa é a consciência primordial pura e ao mesmo tempo é inteligente, criativa, cognitiva e desperta. Ela é a própria consciência do conhecimento.

A prática diária da meditação possibilita, depois de algum tempo, o controlo da mente inferior e o contacto mais efectivo com a mente superior, possibilitando assim a expansão das nossas consciências, bem como um estado de equilíbrio e bem estar nas nossas vidas.

O Perdão de Buda

O perdão é a única maneira de voltar a sermos livres, de afastar os sentimentos negativos e viver bem. Certamente não é fácil, mas inspiramo-nos nesta fábula do Budismo para extrair dela um ensinamento valioso.

Aprender a perdoar é essencial não só para quem está em nosso redor, mas principalmente para nós mesmos. Quem tem a mente livre de raiva, frustração, ódio, é uma pessoa mais feliz, não uma pessoa deprimida. Uma fábula que sempre deve ser lembrada é a do perdão de Buda. Os grandes mestres do budismo transmitiram aos seus discípulos, os ensinamentos para enfrentar melhor a vida.

Perdão do Buda

Conta-se que Buda teve um primo mau. O homem chamava-se Devadatta, sempre teve ciúmes e sempre fez questão de tentar desacreditar Buda.

Um dia, enquanto Buda caminhava em silêncio, Devadatta jogou uma pedra pesada no seu caminho com a intenção de matá-lo. No entanto, a rocha caiu ao lado de Buda e ele não fez rigorisamente nada. Buda adivinhou o que tinha acontecido, mas permaneceu quieto, sem perder o sorriso. Dias depois, encontrou Devadatta novamente e cumprimentou de forma muito afectuosa.

Muito surpreso, o homem questiona:

Devadatta – Não está com raiva?

Buda – Não, claro que não.

Sem deixar de revelar o seu espanto, Devadatta perguntou a ele o porque:

Buda disse-lhe: – Porque nem já és aquele que jogou a pedra, nem eu sou aquele que estava lá quando ela foi jogada.

O que essa fábula ensina? 

Que quem sabe amar, perdoa. E para quem sabe olhar além do nariz, tudo é transitório. Buda ensina a não ficarmos presos ao ódio e ao ressentimento porque esses sentimentos negativos apenas magoam, pesam na alma e impedem a evolução individual.

Benevolência Budista

Há uma parte “egoísta” nossa, que funciona pensando constantemente em nós próprios, e depois nos outros, somente se for necessário.

Isto não é necessariamente algo mau; é parte importante do que significa estar vivo. Quando o interesse próprio converte-se na força dominante da nossa vida, porém, pode fazer-nos agir insensivelmente e até prejudicialmente para com os outros. Tem o potencial de fazer-nos egoístas e, se fica sem controlo, inclusive criminosos. Por um lado, há momentos, especialmente nas emergências, quando o não ver a nossa própria acção, pode mesmo ter resultados catastróficos. Se bem que todos temos que resolver os nossos problemas, alguns destes não podemos resolvê-los sozinhos. Devemos confiar na ajuda de outros. Por outro lado, há momentos nos quais, estendendo-lhe a mão a outros, podemos ajudá-los de uma maneira na qual eles não podem ajudar-se a si mesmos. O que é necessário em tais circunstâncias é benevolência.

A amabilidade que não dá força a quem recebe cria muito pouco valor perdurável. Da perspectiva budista, a verdadeira benevolência é a que tem o poder para erradicar a causa da miséria na vida das pessoas e que conduz as mesmas para a causa da felicidade. Essa benevolência, pela sua própria natureza, requer coragem. Então, como podem as pessoas comuns, governadas pelo impulso para o próprio interesse, manifestar benevolência de uma maneira construtiva e significativa? Um exemplo natural é visto nas acções de uma mãe para com o seu filho. Uma mãe fará qualquer coisa para proteger seu filho, até mesmo significando enfrentar incêndios e inundações.

A benevolência também inclui a capacidade de reconhecer nos outros a força e a capacidade das quais nós mesmos podemos carecer, e o nosso desejo de aprender dessas qualidades. Sendo fácil identificar os pontos fracos nas outras pessoas, é mais difícil pensar em reconhecer claramente e apreciar os pontos fortes dessas pessoas. Não obstante, se focamos os pontos fortes, naturalmente chegaremos a apreciar, sentir-nos mais perto, e inclusive desenvolver um afecto por elas. Como resultado, podemos encontrar-nos pensando nessas pessoas mais frequentemente e sentindo preocupação pelo seu bem-estar.

Nós praticamos e acreditamos no Budismo pela nossa própria felicidade e pela dos outros. Estes dois objectivos da fé não podem estar separados.

Quando oa nossos pensamentos no bem-estar dos outros torna-se parte das nossas orações diárias, transcendemos o impulso inato a estar preocupados somente por nós mesmos, e iluminamos a ignorância fundamental que é a fonte dos sofrimentos com a luz do nosso espirito budista inerente.