Monge budista Thich Nhat Hanh morre aos 95 anos

Um dos mais influentes monges budistas do mundo, Thich Nhat Hanh, morreu este sábado no Vietname com 95 anos, anunciou a organização Plum Village, que gere templos com base nos seus ensinamentos a nível mundial.

O mestre “faleceu pacificamente” no templo Tu Hieu na cidade de Hue, o coração do zen-budismo vietnamita, disse a Plum Village na rede social Twitter, citada pelas agências de notícias France-Presse, Associated Press e EFE.

“Convidamos a nossa amada família espiritual global a tirar alguns momentos para estar em paz”, disse a organização do homem que voltou a viver no seu Vietname natal em 2018, após quase 40 anos no exílio nos Estados Unidos e em França.

Thich Nhat Hanh ajudou a difundir a prática da consciência no Ocidente, nomeadamente com a estrela de TV Oprah Winfey e a atriz Gwyneth Paltrow, ambas norte-americanas, e do budismo socialmente empenhado no Oriente.

Foi também influente com muitos chefes da indústria tecnológica de Silicon Valley, incluindo o gigante Google, onde foi convidado a divulgar os seus ensinamentos.

Thich Nhat Hanh é considerado uma das figuras mais empenhadas do budismo juntamente com o atual Dalai Lama, Tenzin Gyatso, que já lamentou a morte do “amigo e irmão espiritual”.

“Na sua oposição pacífica à Guerra do Vietname, no seu apoio a Martin Luther King e, sobretudo, na sua dedicação em partilhar com os outros não só como a atenção e a compaixão contribuem para a paz interior, mas também como os indivíduos que cultivam a paz de espírito contribuem para a paz mundial genuína, o Venerável viveu uma vida verdadeiramente significativa”, disse o líder espiritual dos budistas tibetanos, citado pela AP.

Escritor, poeta, pacifista e defensor dos direitos humanos, Thich Nhat Hanh opôs-se à guerra do Vietname (1955-1975), o que lhe valeu o exílio.

Começou a ganhar notoriedade internacional em 1966, quando se encontrou nos Estados Unidos com Martin Luther King, que um ano mais tarde o nomeou como candidato ao Prémio Nobel da Paz.

“Não conheço ninguém mais merecedor do que este gentil monge vietnamita. As suas ideias para a paz, se implementadas, seriam um monumento ao ecumenismo, à fraternidade universal, à humanidade”, proclamou o líder dos direitos civis norte-americano, assassinado em 1968.

Vetado pelo Governo pró-EUA do Vietname do Sul, não pôde regressar à sua pátria durante a guerra e foi-lhe também negada a entrada pelo regime em vigor desde a vitória do Norte comunista em 1975.

Em 1982, instalou-se no mosteiro de Plum Village, que fundou no sul de França e onde viveu até se mudar para a Tailândia em 2016, cerca de dois anos depois de ter sofrido um derrame cerebral.

Dois anos mais tarde, mudou-se para o pagode Tu Hieu Pagoda, perto da cidade vietnamita de Hue, o lugar onde se tornou monge em 1942, com 16 anos de idade, e onde morreu hoje.

O sucesso dos seus livros e dos retiros espirituais que organizou com centenas de seguidores permitiu-lhe propagar no Ocidente uma versão modernizada do budismo que estabelece a consciência e a paz interior como pilares centrais, os quais ligou a situações práticas da vida contemporânea.

O outro pilar principal dos seus ensinamentos é que os seres humanos têm de “ser paz” dentro de si próprios para superar sentimentos negativos como a raiva, o medo e o remorso.

Thich Nhat Hanh publicou cerca de 70 livros vendidos em todo o mundo, incluindo Portugal, onde foram traduzidas algumas das suas obras, tais como “Medo”, “A minha casa é o Mundo”, “A arte de viver”, “Criar a verdadeira paz”, “Caminhos para a paz interior”, “Felicidade” ou “A arte do poder”.

“Quando passamos a ser pais das nossas mães, corremos contra o tempo.” Valter Hugo Mãe

“A minha mãe é a minha filha. Preciso de lhe dizer que chega de bolo de chocolate, chega de café ou de andar à pressa. Vai engordar, vai ficar eléctrica, vai começar a doer-lhe a perna esquerda.

Cuido dos seus mimos. Gosto de lhe oferecer uma carteira nova e presto muita atenção aos lenços bonitos que ela deita ao pescoço e lhe dão um ar floral, vivo, uma espécie de elemento líquido que lhe refresca a idade. Escolho apenas cores claras, vivas.

Zango-me com as moças das lojas que discursam acerca do adequado para a idade. Recuso essas convenções que enlutam os mais velhos. A minha mãe, que é a minha filha, fica bem de branco, vermelho, gosto de a ver de amarelo-torrado, um azul de céu ou verde.

Algumas lojas conhecem-me. Mostram-me as novidades. Encontro pessoas que sentem uma alegria bonita em me ajudar. Aniversários ou Natal, a Primavera ou só um fim-de-semana fora, servem para que me lembre de trazer um presente. Pais e filhos são perfeitos para presentes. Eu daria todos os melhores presentes à minha mãe.

Rabujo igual aos que amam. Quando amamos, temos urgência em proteger, por isso somos mais do que sinaleiros, apontando, assobiando, mais do que árbitros, fiscalizando para que tudo seja certo, seguro. E rabujamos porque as pessoas amadas erram, têm caprichos, gostam de si com desconfiança, como creio que é normal gostarmos todos de nós mesmos.

Aos pais e aos filhos tendemos a amar incondicionalmente mas com medo.

Um amigo dizia que entendeu o pânico depois de nascer o seu primeiro filho. Temia pelo azedo do leite, pelas correntes de ar, pelo carreiro das formigas, temia muito que houvesse um órgão interno, discreto, que disfuncionasse e fizesse o seu filho apagar.

Quem ama pensa em todos os perigos e desconta o tempo com martelo pesado. Os que amam sem esta factura não amam ainda. Passeiam nos afectos. É outra coisa.

Ficar para tio parece obrigar-nos a uma inversão destes papéis a dada altura. Quase ouço as minhas irmãs dizerem: não casaste, agora tomas conta da mãe e mais destas coisas.

Se a luz está paga, a água, refilar porque está tudo caro, há uma porta que fecha mal, estiveram uns homens esquisitos à porta, a senhora da mercearia não deu o troco certo, o cão ladra mais do que devia, era preciso irmos à aldeia ver assuntos e as pessoas.

Quem não casa deixa de ter irmãos. Só tem patrões. Viramos uma central de atendimento ao público. Porque nos ligam para saber se está tudo bem, que é o mesmo que perguntar acerca da nossa competência e responsabilizar-nos mais ainda.

Como se o amor tivesse agentes. Cupidos que, ao invés de flechas, usam telefones. E, depois, espantam-se: ah, eu pensei que isso já tinha passado, pensei que estava arranjado, naquele dia achei que a doutora já anunciara a cura, eu até fiz uma sopa, no mês passado até fomos de carro ao Porto, jantámos em modo fino e tudo.

Quem ama pensa em todos os perigos e desconta o tempo com martelo pesado. Os que amam sem esta factura não amam ainda.

Quando passamos a ser pais das nossas mães, tornamo-nos exigentes e cansamo-nos por tudo. Ao contrário de quem é pai de filhas, nós corremos absolutamente contra o tempo, o corpo, os preconceitos, as cores adequadas para a idade. Somos centrais telefónicas aflitas.

Queremos sempre que chegue a Primavera, o Verão, que haja sol e aqueçam os dias, para descermos à marginal a ver as pessoas que também se arrastam por cães pequenos. Só gostamos de quem tem cães pequenos.

Odiamos bicharocos grotescos tratados como seres delicados. O nosso Crisóstomo, que é lingrinhas, corre sempre perigo com cães musculados que as pessoas insistem em garantir que não fazem mal a uma mosca. Deitam-nos as patas ao peito e atiram-nos ao chão, as filhas que são mães podem cair e partir os ossos da bacia. Porque temos bacias dentro do corpo. Somos todos estranhos.

Passeamos estranhos com os cães na marginal e o que nos aproveita mesmo é o sol. A minha mãe adora sol. Melhora de tudo. Com os seus lenços como coisas líquidas e cristalinas ao pescoço, ela fica lindíssima. E isso compensa. Recompensa.

Comemos o sol. Somos, sem grande segredo, seres que comem o sol. Por isso, entre as angústias, sorrimos.” 

Budismo e a Mente | Tenzin Palmo

Do ponto de vista budista, O cérebro é somente o computador. E a parte que faz a programação. Mas qual é a energia que move o computador? Sem essa energia, o computador está morto. A energia que impulsiona o computador não reside no próprio computador. Recentemente, eu estava lendo uma série de artigos escritos por neurocirurgiões de renome. Um deles observou que, embora agora saibamos muito sobre o cérebro, ainda não encontramos a mente. Os tibetanos sabem sobre o cérebro. Se alguém é muito tradicional, incapaz de aceitar as novas idéias, muito preso às velhas formas de pensar, os tibetanos chamam-lhe de “cérebro verde”. A ideia é que o cérebro ficou bolorento. Eles entendem que o cérebro está relacionado com o pensamento, mas o pensamento não é a mente.

Quando falamos sobre mente no Budismo, não estamos falando apenas sobre a faculdade intelectual. Estamos a referir a algo muito mais profundo. Muitas vezes são a mesma palavra. A palavra subjacente, que échitta em sänscrito e sem em tibetano, significa coração e mente. Na altura do coração é onde te concentras. Isso dá a energia, a corrente eléctrica para operar o computador, sem a qual o computador está morto. Então, quando meditamos, temos que aprender a trazer essa energia ao nível do coração.Voltemos ao tópico específico da visão.Tradicionalmente declarada, a visão diz que a nossa mente de sabedoria primordial é a consciência e o vazio combinadas. Se pudermos avançar em direcção à natureza incondicionada da mente, uma condição subjacente fundamental de quem realmente somos, ficaremos com a consciência não-dual. Somos Conscientes; Isto é quem nós somos. Nós sabemos. Se não soubéssemos, estaríamos dormindo, em coma ou mortos. Nós sabemos. Estamos cientes. Mas essa consciência não é concreta. Não é algo a que podemos nos agarrar e dizer: “Esta é a minha consciência”ou “Este sou eu”‘. E transparente e aberto. Na linguagem tibetana, está vazio. Vazio aqui significa “como o céu”.

O monge e o barco | Thich Nhat Hanh

Um monge decide meditar sozinho. Longe do seu mosteiro, pega um barco e vai para o meio do lago, fecha os olhos e começa a meditar. Depois de algumas horas de silêncio inperturbado, ele de repente sente o golpe de outro barco atingindo o seu. Com os olhos ainda fechados, sente a sua raiva a subir e, quando abre os olhos, está pronto para gritar com o barqueiro que ousou perturbar a sua meditação.Mas quando ele abriu os olhos, viu que era um barco vazio, não amarrado, flutuando no meio do lago. Nesse momento, o monge alcança a auto-realização e entende que a raiva está dentro dele; simplesmente precisa de atingir um objecto externo para provocar. Depois disso, sempre que ele conhece alguém que irrita ou provoca a sua raiva, ele lembra; a outra pessoa é apenas um barco vazio. A raiva está dentro de mim.

Quatro lições sobre violência passiva | Arun Gandhi

 Arun Gandhi, neto do pacifista Mahatma Gandhi, é fundador do Instituto para Não-Violência M.K.Gandhi. Numa das suas palestra, ele partilhou quatro lições sobre a violência passiva que aprendeu com seu avô.

Lição 1 – Violência contra a humanidade através de um lápis.

Quando Arun tinha 13 anos, ele morava com o seu avô. Um dia, enquanto voltava para casa, ele jogou na rua um lápis de três centímetros que o Gandhi tinha dado. Arun achava que o lápis era muito pequeno e por isto, merecia um novo. Nesta noite, ele solicitou um novo e Gandhi perguntou sobre o lápis e a razão dele tê-lo jogado, solicitando que o neto o procurasse. No meio da escuridão e somente com uma lanterna, Arun vasculhou por duas horas antes de achá-lo.

Então, o avô ensinou-lhe duas lições que tornaram-se valiosas para ele. A primeira foi de que mesmo um pequeno e simples objecto, como um lápis, requer o uso dos recursos naturais do mundo. Descartá-lo é sinonimo de descartar os recursos do mundo e isto é uma violência contra a natureza. A segunda foi que embora possamos ter condições de adquirir inúmeros bens, algumas vezes os utilizamos de forma indiscriminada, consumindo recursos além do necessário.

Quando os consumimos em excesso, estamos privando que estes possam ser direccionados para pessoas que vivem na miséria e esta é uma violência contra a humanidade. Gandhi ensinou que, muitas vezes, as nossas pequenas acções diárias são actos de violência e que somente tomando o devido cuidado com os pequenos detalhes é que seremos capazes de resolver as grandes violências que ocorrem no mundo.

Lição 2 – Árvore Familiar da Violência

Gandhi ensinou ao jovem Arun que nós devemos compreender o que é a violência, antes de compreendermos o significado da não-violência. Ele sentia que isto era necessário para que pudéssemos compreender o volume de actos violentos que praticamos todos os dias. Gandhi sugeriu para que o neto desenhasse uma “Árvore Familiar da Violência”, sendo que a violência seria o tronco e a violência física e a violência passiva como dois ramos. Em seguida, ele explicou que a violência física é fácil de ser compreendida, pois causa feridas na pessoa atingida. Entretanto, a violência passiva – como a opressão, repressão, ódio, insulto e preconceito – não pode ser necessariamente observada. Assim, a violência passiva – a qual geramos a todo momento – faz brotar o sentimento de raiva na vítima e provoca a violência física. A violência passiva é o combustível que faz acender a violência física.

Desta forma, Gandhi ensinou que para cessarmos a violência, é fundamental rompermos a sua fonte, ou seja, a violência passiva. O pacifista indiano ensinou que devemos ser os precursores das mudanças que gostaríamos de presenciar e que isto somente é possível através do acto de compreendermos o quão violentos somos. Ele acrescentou que se vivermos negando a nossa violência, somente iremos permitir que ela continue presente. Arun partilhou esta compreensão com Gandhi desde a tenra infância, construindo esta “Árvore Familiar da Violência”. Ele escrevia diariamente sobre os seus sentimentos, acções e palavras, assim como os factos que presenciava. Por fim, ele compreendeu o quão violento ele era e através deste exercício, começou a mudar o seu comportamento.

Lição 3 – Confiança e Acção Construtiva

Gandhi ensinou que cada indivíduo possui um talento, na qual pode ser adquirido ou inerente. Entretanto, as pessoas geralmente acreditam que este talento pode ser dispendido de acordo com o seu próprio desejo. Gandhi acreditava que nós não éramos proprietários deste talento, mas que este nos era confiado.

Logo, este deveria ser utilizado em prol do bem estar social. Isto significa muito mais do meramente distribuir algo para alguém necessitado. Uma actividade sensível ao mal alheio é diferente, pois requer a interrupção do que estamos realizando neste momento e o redireccionamento das nossas energias em prol de uma solução para quem necessita da nossa ajuda. Requer que possamos encontrar a causa de uma determinada situação e de forma concreta, colaborar para que o indivíduo utilize o seu talento, com o objectivo de transformar esta circunstância para melhor. Tudo isto requer um sacríficio de tempo pessoal, para que possamos tanto conhecer o outro, como ajudá-lo na resolução do seu problema.

Lição 4 – Jornal da Raiva

Gandhi ensinou que a raiva é positiva, quando ela é compreendida e direccionada de forma efectiva e inteligente. Ele declarou que a raiva é como a electricidade, quando utilizada de modo inadvertido pode destruir todos; mas, se canalizada de forma inteligente, pode ser utilizada para o bem da sociedade. Gandhi sugeriu que Arun mantivesse um “Jornal da Raiva”, na qual ele escreveria todas as vezes que estivesse irado, ao invés de tomar uma acção com base neste estado de vida. Entretanto, Gandhi enfatizou que o jornal deveria ser escrito com o objectivo de encontrar uma solução construtiva para a raiva, ao invés de mantê-la viva dentro de si e que para o seu neto pudesse aprender a canalizar esta emoção de forma construtiva e enriquecedora.

Espírito de Gratidão, segundo o Budismo

Manifestar a gratidão é algo que nós, seres humanos, devemos demonstrar diariamente. Basicamente, todos os factores que ocorrem na nossa vida devem-se ao facto de convivermos em sociedade e em interdependência. Não há como fugir disso.

Um exemplo: a possibilidade de usufruirmos de energia elétrica, água, alimentos, roupas e outros itens básicos deve-se ao facto de outras pessoas trabalharem para que a nossa vida “funcione” melhor. Porém, estamos tão ligados em modo automático, vivendo as nossas rotinas que não percebemos o quanto somos afortunados pelas oportunidades diárias que a própria vida oferece.

No momento que percebemos esse detalhe, estaremos praticando a verdadeira gratidão, segundo o Budismo. Quando um conhecido nos indica uma oportunidade de emprego, quando não estamos num bom dia e algum amigo oferece parte do seu tempo para um diálogo, quando alguém que gostamos, faz-nos uma declaração inesperada de afecto, quando o nosso animal de estimação nos recebe em casa todo feliz, após um dia cansativo… Podemos ficar muito tempo lembrando de valorizar as pequenas e grandes acções que os outros fazem por nós e sermos gratos por isso.

A maneira de manifestar gratidão, segundo o budismo, é fazendo pelas pessoas o que gostaríamos que fizessem por nós, às vezes até mais. “A velha raposa jamais esquece a colina onde nasceu; a tartaruga branca retribui a gentileza que havia recebido. Se mesmo criaturas inferiores sabem o suficiente para agir assim, então, os seres humanos deveriam fazê-lo muito mais!” (As Escrituras de Nitiren Daishonin, vol. 4, pág. 17.)

Neste escrito do século XIII, o buda Nitiren Daishonin ensinou a importância de retribuir ao sentimento de gratidão com os pais, aos mestres (professores, pessoas que nos ensinam) e a todos os demais seres. Algumas fontes citam o débito de gratidão com todos os seres vivos.

Ele ressalta a importância que todos os seres humanos possuem de saldar o débito de gratidão como uma atitude fundamental e imprescindível do comportamento humano. Ele enfatiza que, para retribuir tal dedicação, a pessoa deve compreender a própria essência da vida das outras pessoas, assim como compreende a sua e, dessa forma, manifestar a gratidão na sua vida, primeira e unicamente tornando-se uma pessoa melhor.

Posteriormente, devemos ser gratos às pessoas que nos ajudam, nos auxiliam; bem como às pessoas que de alguma forma nos prejudicaram. Todos esses componentes são importantes para forjar o nosso carácter como seres humanos de primeira categoria.

“A razão pela qual devem ter gratidão por todos os seres vivos deve-se ao facto de — uma vez que a vida se estende pelas três existências — todos os homens terem sido o seu pai no passado, uma vez ou outra, e todas as mulheres terem sido a sua mãe. Existência após existência, ficaram em dívida com todos esses seres, é por isso que devem desejar que todos atinjam a iluminação em suas vidas.” (Siddhartha Gautama – Buda)

Podes começar hoje, neste exacto momento. Sê grato pela tua vida e pelas oportunidades que surgem todos os dias, mudando o pensamento de “o que eu tenho que fazer hoje?” para “o que eu posso fazer hoje pelas pessoas?”

Como os ensinamentos do Budismo podem ser aplicados no dia a dia?

Apesar de estar cada dia mais em alta, o Budismo não é exactamente novo, e começava a surgir na Índia há uns impressionantes dois mil e quinhentos anos. A religião – que na verdade não se denomina como uma – é quarta mais praticada no mundo, mesmo sendo não teísta, ou seja, não acredita na existência de um único Deus. Actualmente, estima-se que haja 500 milhões de seguidores no mundo todo. Os seus ensinamentos, criados em épocas tão distintas as que vivemos actualmente, nunca foram tão actuais: para o Budismo, as respostas que procuras muitas vezes estão dentro de ti. Mas, para encontrá-las, é preciso estar disposto a aceder o teu interior mais íntimo – tarefa nem sempre fácil ou agradável.

Mas não se engane: é impossível desligar-se do mundo exterior. Sofremos diariamente influência do ambiente onde estamos inseridos, mas a sua atitude interior pode ser a resposta para a manutenção de suas angústias.

Como tudo surgiu:

Assim como outros dogmas, a história do Budismo é contada há milénios e pode ter sofrido algumas alterações com o tempo. Acredita-se que numa região indiana – hoje pertencente ao Nepal – havia um príncipe chamado Siddhārtha Gautama . A sua jornada, que contou com um isolamento de 29 anos e uma busca pela compreensão humana que durou toda a sua vida, conferiram a ele o título de Buda Sakyamuni, considerado um ser iluminado. Mas que busca era essa? Buda percebeu ainda jovem que o luxo não traria a felicidade, que aparentemente é o maior desejo da nossa espécie desde que o mundo é mundo. Então ele partiu na procura de respostas: queria encontrar um método único que colocasse fim ao sofrimento humano. O que o guia espiritual concluiu é que isso só seria possível se o sujeito se dedicasse a evitar acções não-virtuosas o máximo possível, praticar o bem a todos que cruzassem o seu caminho, sem distinções, e treinasse a mente para enfim dominá-la. Em tempos onde viver até os 40 anos já era uma vitória, Buda viveu até os 80 – sendo provavelmente um dos primeiros casos de longevidade de sucesso da história na altura. Ele difundiu os seus ensinamentos até ao último dia da sua vida – que perduram até hoje mundo afora.

Principais preceitos:

Porque é que os seus seguidores não o denominam como religião, mas sim como uma filosofia de vida? Como posso aplicar os seus ensinamentos no meu quotidiano? Essaa são algumas dúvidas comuns que podem surgir quando o assunto é Budismo.

Apesar de ensinamentos tão actuais, o Budismo é das filosofias mais antigas que existem. Antes de respondê-las, é importante explicar as Quatro Nobres Verdades instituídas pela linha de pensamento budista:

A vida é sofrimento: O sofrimento é fruto do desejo. O sofrimento acaba quando o desejo acaba. Isso só é alcançado se seguirmos os ensinamentos de Buda – sendo essa a quarta Nobre Verdade, que propõe em seguida ensinar os caminhos para a libertação do sofrimento humano (também citado em literaturas budistas como Nobre Caminho Óctuplo). Essa busca pela libertação do sofrimento humano é baseada na sua trajectória individual que demanda as mudanças de atitudes do indivíduo que a pratica. E é isso que a torna mais uma filosofia do que propriamente uma religião: por não adorar nenhum Deus específico, ou não possuir uma hierarquia religiosa muito rígida, o Budismo acaba por se tornar uma busca pessoal. É a partir delas que o sujeito poderá enveredar pela “Senda das Oito Trilhas”, que consistem nas seguintes exigências: pureza de fé, de vontade, de linguagem, de acção, de vida, de aplicação, de memória e de meditação. Tendo ainda elas como base, há também preceitos muito semelhantes ao que outras religiões pregam, como a judaico cristã: não matar, não roubar, não mentir ou cometer actos impuros e não consumir líquidos inebriantes. Apesar de possuir linhas diferentes de pensamento, todas elas reservam em comum a fé no caminho da libertação por meio das Três Jóias: o Buda como guia, o Dharma como lei fundamental do universo e o Sangha como a comunidade budista.

Aplicando os ensinamentos budistas

Agora que já entendeste como nasceu o Budismo e o que o torna tão único e específico, hora de conhecer um pouco mais sobre seus valores. Os seus ensinamentos podem começar pelas duas grandes heranças que deixou, apropriadas por outras religiões e até por ateus: os termos “carma” – que diz respeito ao facto de toda acção possuir uma reacção a longo prazo – e o termo “nirvana”, que descreve um estado de extrema paz, quando o indivíduo atinge a iluminação de Buda e consegue extinguir-se de todo o ego humano.

Além disso, destaca-se o olhar em seu redor com amor e empatia, sabendo valorizar até mesmo o simples conforto do mundano, enxergar a beleza da rotina. Outro factor muito importante é o entendimento de que, diferente do nosso corpo físico, a nossa mente não possui limites e não só pode, como deve ser domada – e que isso, na verdade, pode ser a chave para o equilíbrio mental.

Praticar o desapego tanto emocional quanto material é um dos pilares dessa filosofia que também pode se encaixar nos seus hábitos, sobretudo eliminando a raiva. Isso reflecte até mesmo na escolha das suas relações pessoais, que deve ser feita com muito cuidado, zelo e atenção, pois reflectirão por toda a sua vida. Uma vez que isso for feito, será fácil alegrar-se pela conquista do outro, entrando noutro ensinamento budista também muito importante. Seja dono da sua própria felicidade é algo que Buda já pregava há milhares de anos, e que o ser humano ainda custa em aprender. Os problemas externos sempre existirão, mas cabe a si decidir como recebê-los e o quanto eles podem afectar-te. Lembre-se que não há nada na sua vida que tenha entrado ou permanecido sem a sua própria permissão, ainda que de forma inconsciente.

Por fim, entenda os seus limites e respeite-os. Para isso, controle as suas expectativas e seja gentil com as suas escolhas. Entenda que todas elas fizeram parte de quem és, e te guiaram pelos caminhos que te conduziram até aqui. Esteja presente no tempo presente e concentre-se nele, pois é somente ele que temos agora e o aqui e o agora devem ser as suas únicas preocupações.

Agora que já conhece mais sobre a doutrina budista, que tal praticá-la? Lembre-se que o Budismo não possui amarras ou limites de pensamento. É possível beber da sua fonte e absorver somente o que couber na sua vida, sem abdicar das suas outras crenças. O importante é estar em equilíbrio com os seus pilares , para ter uma vida longa e plena.

Chamtrul Rinpoche | O que é a Meditação?

“É a palavra tibetana “gom” que é traduzida para o português como “meditação”. Mas o que é que “gom” significa realmente? Significa habituar-se, familiarizar a mente com algo que é positivo.  Assim, através da meditação, uma mente que era frequentemente stressada, que carecia de concentração e clareza, que muitas vezes experienciou cobiça, inveja, ódio, raiva, e assim por diante, em vez disso pode sem esforço manter-se calma, clara e focada, e, naturalmente, responder a qualquer coisa com compaixão, amor, paciência, generosidade, e assim por diante. Além disso, é através da meditação que a nossa mente é acordada de sua falta de consciência da realidade, libertando-nos assim do samsara, e além disso, atingindo o estado iluminado de um Buda para o benefício de todos. Todos, sem excepção, tem o potencial de mudar. Qualquer um que duvide disso, ainda tem que meditar.”

Continuando com a Prática | Tulku Thondup Rinpoche

Algumas pessoas que aparecem nas minhas oficinas pensam que todos os seus problemas serão curados, como mágica, numa sessão.

Infelizmente, dificilmente funciona dessa maneira. Hoje em dia, estamos condicionados a querer uma “solução rápida” e resultados imediatos. Se meditarmos verdadeiramente com total sinceridade e abertura, pode fazer a diferença mesmo num fim de semana. Mas temos que continuar. Há não muito tempo atrás, um grande professor budista proferiu uma palestra a um público ocidental, aconselhando-os a meditar um pouco todos os dias. “Pode não fazer diferença no curto prazo”, disse ele, “mas em semanas, meses, anos ou talvez décadas, vai sentir algo diferente.” As pessoas começaram a rir. Eles queriam ouvi-lo a dizer que todos os benefícios seriam alcançados imediatamente. Mas, pode levar tempo, e isso desencoraja muitos de nós. Se resolvermos praticar esta semana por dez horas e não mudarmos completamente depois disso, estamos prontos para desistir. Achamos que não está funcionando. Durante anos, a grande parte da nossa energia dissipou-se com preocupações com problemas e sobre o que queremos. Isto é como uma meditação negativa. Estamos treinando na direcção errada. Reverter isso leva mais do que algumas horas ou dias.

Precisamos ser pacientes e consistentes. Nós comemos todos os dias. Não nos questionamos sobre isso. Mas quando se trata de meditação, de alguma forma pensamos: “Eu fiz isso uma vez; eu não quero fazer isso de novo. ”A chave é fazer da meditação uma parte das nossas vidas, como tecer um fio no tecido de uma tapeçaria. Trazer uma atitude de alegria para a nossa meditação ajuda tremendamente. Também nos ajuda reavivar os sentimentos pacíficos da meditação nas nossas actvidades diárias. É assim que podemos começar a provar os frutos dos nossos esforços. Quando a cura da mente se torna um hábito, a nossa mente torna-se como um grande rio. Embora o rio nem sempre pareça estar em movimento, se olharmos de perto, veremos como a água está lentamente indo em direcção ao mar.

Um raio de luz na escuridão da tempestade | Dzongsar Khyentse Rinpoche

Como detectar a natureza búdica no meio de tanta ignorância, escuridão e confusão? O primeiro sinal de esperança para um marinheiro perdido no mar é avistar um raio de luz na escuridão da tempestade. Ao navegar na sua direcção, ele chega à fonte de luz, ao farol. O amor e a compaixão são como a luz que emana da natureza búdica. No começo, a natureza búdica é um mero conceito muito além da nossa visão, mas se gerarmos amor e compaixão um dia conseguiremos caminhar em sua direcção. Pode ser difícil ver a natureza búdica daqueles que estão perdidos na escuridão da ganância, do ódio e da ignorância. A natureza búdica dessas pessoas é tão distante que parece inexistir. Entretanto, até as pessoas mais sombrias e violentas têm lampejos de amor e compaixão, ainda que breves e ténues. Se esses raros vislumbres forem nutridos e se for investida energia para seguir na direcção da luz, a natureza búdica dessas pessoas pode ser revelada.

[…]

Além do amor e da compaixão, existe um sem-número de caminhos disponíveis que nos levam mais perto da compreensão da natureza búdica. Mesmo se entendermos apenas intelectualmente a bondade fundamental do ser humano e de todos os demais seres, esse entendimento já nos aproxima da natureza búdica. É como se tivéssemos esquecido onde guardamos um anel de diamante precioso, mas pelo menos sabemos que está dentro de um porta-jóias, e não perdido na vasta encosta de uma montanha.

Embora empreguemos palavras como alcançar, desejar e rezar em referência à iluminação, em última análise não conquistamos a iluminação a partir de uma fonte externa. Uma forma de expressão mais correcta seria descobrir a iluminação que sempre existiu. A iluminação faz parte da nossa verdadeira natureza. A nossa verdadeira natureza é como uma estátua de ouro que ainda está dentro do molde, e o molde é como os obscurecimentos e a ignorância. Assim como o molde não faz parte da estátua, a ignorância e as emoções não constituem uma parte intrínseca da nossa natureza, e por isso podemos falar em pureza original. Quando o molde é quebrado, surge a estátua. Quando os obscurecimentos são removidos, a nossa verdadeira natureza búdica é revelada. É importante, contudo, compreender que a natureza búdica não é uma alma ou essência divina verdadeiramente existente.

[…]

Quando Sidarta se iluminou, passou a ser conhecido como Buda. Buda não é o nome de uma pessoa; é a designação de um estado mental. O termo buda denota uma qualidade que tem dois aspectos: “realizado” e “desperto”. Em outras palavras, aquele que purificou os obscurecimentos e aquele que alcançou o conhecimento. Ao atingir o estado de realização debaixo da árvore bodhi, Buda despertou da visão dualista e do emaranhado de conceitos que a acompanha, como sujeito e objeto. Ele entendeu que nenhuma coisa composta pode existir de modo permanente. Ele entendeu que nenhuma emoção leva à felicidade, se provier do apego ao eu. Ele entendeu que não há um eu verdadeiramente existente, nem fenómenos verdadeiramente existentes que possam ser percebidos. E ele entendeu que mesmo a iluminação está além dos conceitos. Esse entendimento é o que chamamos a “sabedoria de Buda”, uma conscientização da verdade em sua totalidade.

Texto extraído do livro “O que te faz ser budista?“, de Dzongsar Jamyang Khyentse.